atualizando moretti: à distância

caça-palavras, palavras cruzadas, decifrador, criador de identidade das palavras, estudioso de palavras, investigador de palavras.... não importa. moretti irá decifrá-las. deveriam oferecer recompensas, não achas? do tipo: procura-se viva ou morta as palavras tal e tal.... isso é tão bom e tão próximo!
 
 A literatura vista de longe
 
Gráficos, mapas e árvores
 
O título deste breve livro merece algumas palavras de explicação. Antes de mais nada, aqui se fala de literatura: o objeto permanece mais ou menos aquele de sempre, diferentemente da recente virada do new historicismo e, depois, dos cultural studies em direção a outros âmbitos de discurso. Mas a literatura é, não obstante, "vista de longe” no sentido de que o método de estudo aqui proposto substitui a leitura de perto do texto (o close reading da tradição de língua inglesa) pela reflexão sobre aqueles objetos artificiais com os quais se intitulam os três capítulos que se seguem: os gráficos, os mapas e as árvores. Objetos diferentes, mas todos resultado de um processo de deliberada redução e abstração. Em suma, de um distanciamento em relação ao texto em sua concretude. Distant reading, chamei uma vez, um pouco por brincadeira e um pouco não, a este modo de trabalhar¹ em que a distância não é um obstáculo, mas sim uma forma específica de conhecimento. A distância faz com que se vejam menos os detalhes, mas faz com que se observem melhor as relações, os pattern, as formas.
Do texto ao modelo, então, ou, melhor ainda, aos modelos, no plural, como no título, talvez um pouco duro, severo, das três conferências proferidas em Berkeley, na primavera de 2002, e que formam a base destas: Modelli astratti per la storia letteraria [Modelos abstratos para a história literária]. E os modelos, além do mais, foram retirados de três disciplinas com as quais a história literária teve, no curso de sua existência, pouco ou nada a ver: os gráficos da história quantitativa, os mapas da geografia e as árvores da teoria da evolução. As razões remotas desta escolha remetem à minha formação marxista que foi muito influenciada por Galvano dela Volpe e comportava (senão na prática mesmo, pelo menos em teoria) um grande respeito pelo método das ciências naturais. Enquanto a teoria literária dos últimos 20 anos – a Teoria, com T maiúsculo, das universidades americanas – reverberava a metafísica franco-alemã, para mim continuava a parecer que aquelas com as quais tínhamos verdadeiramente que aprender alguma coisa (melhor: muitas coisas) eram as ciências naturais e sociais. E este livro é também, na sua brevidade, uma tentativa de iniciar um diálogo em uma direção diversa.
 
Às razões que vieram de longe, se associa uma outra, muito próxima: o fato, evidente e inevitável, de que o interesse pelo estudo da literatura está diminuindo a olhos vistos. Quando entrei na universidade, e não foi um século atrás, no curso de Letras existiam quatro professores de Latim para um de Inglês. No ciclo de uma geração, tudo mudou. E a geração que veio depois, repare bem, quer continuar mudando. Estudar cinema, televisão, publicidade e quadrinhos está na ordem do dia. O crítico norueguês que escreveu o excelente ensaio sobre a narrativa contemporânea para Il romanzo deixou há alguns meses sua cadeira de Literatura e foi trabalhar em um centro de estudos sobre videogames. E eu acredito que o que ele fez foi correto.
E agora? Agora, como em Patmos, onde surge o perigo surge também a salvação. Uma disciplina que está perdendo o seu fascínio pode tranquilamente arriscar tudo e procurar um novo modo, um novo método para tornar significativo o seu próprio trabalho. E se aqui, como já disse, os métodos serão abstratos, as suas consequências são, porém, todas concretas. Gráficos, mapas e árvores nos colocam, literalmente, diante dos olhos (a literatura vista de longe...) o quanto é imenso o campo literário e como sabemos tão pouco dele. É uma dupla lição, simultaneamente de humildade e euforia: humildade em relação àquilo que fizemos até aqui (bem pouco), e euforia em relação àquilo que ainda temos que fazer (muitíssimo). E, então, comecemos.
 
Gráficos
Antes dos Annales, Krzysztof Pomian escreveu: “o comportamento dos historiadores parecia-se com aquele dos colecionadores: uns e outros recolhiam somente as coisas raras e curiosas, deixando de lado tudo o que era banal, cotidiano e normal [...] a história era uma ciência ideográfica, isto é, uma ciência que tinha como objeto aquilo que não se repete²”.
 
“A história era...” Pomian aqui fala no passado como, talvez, seja o correto para a história social, mas certamente não para a história literária, em que o colecionador de coisas (ou obras) raras e curiosas, que não se repetem, excepcionais – e que o close reading torna ainda mais excepcionais quando sublinha o caráter único daquela palavra e daquela frase ali – é ainda, de longe, a figura dominante. Mas o que aconteceria se os historiadores da literatura decidissem também “mudar a direção do olhar” (ainda Pomian) “do extraordinário para o cotidiano, dos acontecimentos excepcionais para a grande massa dos fatos”? Que literatura terminaríamos por encontrar na “grande massa dos fatos”?
Todas estas eram perguntas que comecei a fazer-me alguns anos atrás, quando o estudo dos repertórios bibliográficos de vários países europeus fez-me entender em que minúscula fração do campo literário se desenvolve, normalmente, a atividade da crítica. Tomemos o século 19 inglês: um cânone de 200 ou 300 romances ecoa qualquer coisa, menos que seja exíguo (e seria, com efeito, muito mais amplo do que o cânone corrente), mas cobriria, porém, somente cerca de um por cento dos romances efetivamente publicados: 20 mil, 30 mil ou mais, ninguém sabe precisamente. E o close reading aqui não ajuda muito. Se você fosse ler um romance por dia, por todos os dias do ano, seria preciso pelo menos um século para ler todos... E depois não é nem mesmo uma questão de tempo, mas de método: um campo assim tão vasto não é possível ser entendido apenas colocando lado a lado o que sabemos deste ou daquele outro caso isolado. Porque não é a soma de tantos casos isolados: é um sistema coletivo, um todo, que deve ser visto e estudado como tal. Ou, para citar a conferência sobre a história que Fernando Braudel proferiu em 1941, em Lubecca, para os seus companheiros de prisão:  

Um número incrível de dados, sempre em movimento, domina e decide o caso de cada existência em particular [...]. Incerteza, portanto, no campo da história individual, mas no outro, no campo da história coletiva, simplicidade e coerência quase total. A história é, sim, “uma pobre pequena ciência conjetural” quando tem por objeto indivíduos isolados do grupo, quando trata de acontecimentos, mas é muito menos conjetural e bem mais racional, seja nos procedimentos, seja nos resultados, quando recolhe para examinar os grupos e o repetir-se dos acontecimentos³”.

[...]
  • 1 “Conjecturas sobre a literatura mundial”. In: Contracorrente: o melhor da New Left Review em 2000; Rio de Janeiro: Record, 2001.
  • 2 K. Pomian. “L´histoire des structures”. In: J. Le Goff(org.), La nouvelle histoire. Paris, 1978, p.115-16.
  • 3 F. Braudel. “L´histoire, mesure du monde”. In: Les écrits Fernand Braudel, vol II. Paris, 1977.

Moretti, Franco, A literatura vista de longe/ Franco Moretti; trad. de Anselmo Pessoa Neto – Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2008.


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