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dentro da revista da fox está a coluna denominada 'Folha de Rosto', do jornalista e crítico de arte, elias pinto. a revista fev/2014 traz este texto gentilmente cedido pelo autor. confira: 

MADE IN PARÁ

A Fox tem uma boa seção de literatura paraense. Na verdade, a Fox tem a melhor estante de literatura paraense entre as livrarias da cidade. Há bons títulos de ficção e não ficção, muitos deles de publicação recente. Boa parte desses títulos, a propósito, teve sessão de autógrafos na própria Fox.

Mas é diante desse representativo acervo de autores locais, no entanto, e paradoxalmente, que se escancara a ausência, entre as lombadas ali dispostas, dos mais importantes escritores da terrinha. Dificilmente o leitor encontrará um Haroldo Maranhão, um Max Martins, um Ruy Barata, um Bruno de Menezes, para remediar os leitores da carência literária dos nossos, dos daqui. Haverá, sim, um e outro Dalcídio Jurandir, reeditado por empenho de seus herdeiros e de alguns poucos estudiosos de sua obra. E um bom sortimento de Benedito Nunes, frutificado graças à semeadura de seu fiel discípulo, Victor Sales Pinheiro.

Claro, a responsabilidade por essa falta, por esse vazio entre as lombadas de autores papa-xibés dispostas em ordem alfabética não é da Fox, mas do nosso raquitismo editorial mancomunado, em alguns casos, com interesses dissonantes (ou sonantes) dos herdeiros. Enquanto isso, obras-primas como Cabelos no Coração e Rio de Raivas, de Haroldo Maranhão, Caminho de Marahu e 60/35, de Max Martins, por exemplo, podem ser encontrados – com muita garimpagem – em alguns sebos espalhados pelo Brasil. Mas nem tudo está perdido – ou esgotado, fora de catálogo. 2014 chega com boas novas, poeticamente falando. Por enquanto, é só o que posso adiantar – ou antecipar. E vamos torcer para que, em breve, as lacunas na estante dos nossos autores sejam devidamente preenchidas, fino biscoito com recheio made in Pará.

O GOLPE CINQUENTÃO

Na edição anterior desta Folha de Rosto comentei a respeito de alguns lançamentos previstos para 2014. Lembrei, entre as datas redondas, que teremos os 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas, os 30 anos do movimento das Diretas Já, o centenário do início da Primeira Guerra Mundial e, por fim mas não menos importante (principalmente para nós, brasileiros), uma batelada de livros sobre os 50 anos do golpe de 1964.

Pois o cinquentenário da quartelada já me veio dar às mãos. Da Zahar acabo de receber A Ditadura Que Mudou o Brasil. Organizada pelos professores Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridenti e Rodrigo Sá Motta, a coletânea reúne estudos que ajudam a compreender melhor as raízes e os fundamentos históricos do regime ditatorial, cujo legado ainda marca nosso país. Este volume inaugura a série “1964, Cinquenta Anos Depois”, que prosseguirá com a publicação, em breve, de Ditadura e Democracia no Brasil (já agora em fevereiro) e As Universidades e o Regime Militar, em março.

Da tradicional Civilização Brasileira (que passou maus pedaços, no tempo de Enio Silveira, sob o tacão dos militares) recebi duas provas, o texto que antecede a impressão definitiva. Um Homem Torturado: Nos Passos de Frei Tito de Alencar, das jornalistas Leneide Plon-Duarte e Clarisse Meireles, chega em abril. É um relato comovente sobre a vida de frei Tito de Alencar. Estudante de filosofia da USP, onde participava ativamente do movimento estudantil, Tito chegou a ter momentos de dúvida e de incerteza sobre a possibilidade de conciliar Marx e Cristo. Foi ele quem conseguiu o sítio para o famoso Congresso da UNE, em Ibiúna, desbaratado pela repressão em 1968. Com outros frades dominicanos, aliou-se à Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella, dando apoio logístico à organização. Perseguido, Frei Tito foi preso e submetido a duras sessões de tortura. Seus relatos sobre o cárcere ultrapassaram a prisão e foram publicados na revista americana Look, rendendo a ele o prêmio de reportagem do ano de 1970, concedido pelo New York Overseas Press Club. Mas as marcas deixadas foram profundas demais: em setembro de 1974, o corpo do frade de 28 anos apareceu pendendo de uma árvore, perto de uma área inóspita, às margens do rio Saône. Tito preferiu a morte a ter de viver com o fantasma da tortura.

Para seguir os passos de Tito de Alencar Lima desde o dia em que foi preso até o seu suicídio, em 1974, na França, as autoras consultaram vasta bibliografia sobre o tema e ouviram alguns dos 69 prisioneiros políticos que deixaram o Brasil junto com Tito, no voo para Santiago, trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bücher, em 1971. O corpo do Frei Tito veio para o Brasil em 1983 e hoje repousa em Fortaleza.

A outra prova é a do livro 1964: O Golpe Que Derrubou um Presidente e Instituiu a Ditadura no Brasil, de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes, programado para fevereiro. Numa linguagem objetiva, sem exageros acadêmicos ou notas de rodapé excessivas, que podem tornar o texto menos atraente para o grande público, eles destacam personagens e momentos que marcaram o período, relembrando falas de personalidades e trechos de jornais que noticiaram o golpe. É isso. É preciso estar atento e forte.

GOSTEI DE LER


Aproveitando que vocês estão passando pela estante de autores paraenses, procurem A Feira da Noite, do companheiro Edgar Augusto. É um delicioso pot-pourri de causos da noite belenense, de seus músicos e poetas, tendo por cenário, entre outros, o Quem São Eles e bares que a memória boêmia guarda, desafiando a coletiva amnésia alcoólica, como o Maracaibo e a Casa do Choro. O livro do Edgar nos deixa um gosto de quero mais, de outra saideira, e mais outra, e mais outra...

fonte: Elias Pinto