a cid-10: o indivíduo, a sociedade e a literatura....


por quê não? se posso configurar a cid-10 dentro desses aspectos(?), então posso dizer que o século, este, em que estamos vivendo, é o da lou-cu-ra. portanto, trago de volta a 'série estudiosos', iniciando com ela um processo aperfeiçoado, mais bem acabado(pretendo). a série foi inaugurada na época em que estava como blog. vamos lá!

1] Série Estudiosos: Roland Jaccard
Uma das obras da coletânea de entrevistas do Le Monde, jornal francês, está o L'Individu, O Indivíduo, de 1985. Nas categorias estão O Inconsciente(Léon Chertok, Ernest Federn, Erich Fromm, Jean Laplanche), O Cérebro(Jean-Pierre Changeux, Albert Jacquard, Jaques Mehler, Maurice Reuchlin, Jacques Ruffié, Herbet S. Terrace, René Zazzo), A sociobiologia: prós e contras(Edward O. Wilson e Richard Lewontin), A loucura(Joseph Berke, Ronald Laing, Jean-Georges Lemaire, Thomas Szasz, Leopold Szondi, Hubertus Tellenbach, Paul Watzlawick). Neste, a tradução é de Sérgio Flaksman e a introdução de Roland Jaccard, escritor, jornalista e crítico literário. Conheça o seu sítio e o seu blog, ou, escolha a página central [por cá]. Todas as peças saíram pela editora Ática.
 
As Rapsódias do Eu
Introdução
 
A modernidade se caracteriza por uma crise da subjetividade – com seus corolários estéticos: gosto pela fragmentação e pela descontinuidade – e pela obstinação em sublinhar a função de desconhecimento inerente à estrutura de nosso ser. Seu leitmotiv poderia ser resumido nesta simples frase: 'Não sei onde estou'.
Uma jovem neurastênica, que certo dia falava sobre si mesma com seu psicoterapeuta em tom neutro, confiou-lhe: 'Ela fica sentada chorando o tempo todo'. 'Gostaria de saber por que ela chora', disse o terapeuta. E ela respondeu com essas palavras pungentes: 'Ela chora porque não sabe mais quem ela é'.
A questão já foi muito enfatizada, mas nem por isso deixa de ser extremamente perturbadora: nenhuma civilização, nenhuma outra cultura – seja histórica ou exótica – jamais dispôs de tantos instrumentos de identificação e, consequentemente, de homogeneização da sociedade. No entanto, nenhuma delas conheceu uma crise de identidade semelhante.
O homem da época moderna, quando não é esquizofrênico, é basicamente esquizóide; incomunicabilidade, solidão, tédio, melancolia, desgosto, estas palavras-chaves de seu sofrimento constante e aceito fazem parte integrante de sua experiência. E do consultório do clínico geral, bem como do divã do  psicanalista, eleva-se a lúgubre queixa dos incompreendidos, dos angustiados, dos suicidas, dos insatisfeitos, dos deprimidos, dos abandonados... como se o homem da idade moderna se percebesse essencialmente através de seus distúrbios, de seus sintomas, de suas disfunções biológicas e/ou psíquicas. A doença como último refúgio da criatividade.
Progressivamente – como deixar de perceber? - o exílio interior se torna a condição de cada um de nós. As relações fantasiosas predominam sobre as relações reais; o espaço interior sobre o espaço exterior; o imaginário individual sobre o social ou o coletivo.
O homem da era totalitária não é apenas o indivíduo, átomo da massa, mas o homem desolado. 'A dominação totalitária', escreve Hanna Arendt, 'depende da desolação, da experiência de absoluta não-pertinência ao mundo... estreitamente ligada ao desenraizamento e à inutilidade que acometeram as massas modernas depois do início da revolução industrial'.
Gilles Lipovetsky observa a relação a esse ponto que cada geração gosta de se reconhecer e de encontrar sua identidade numa grande figura mitológica ou lendária, que ela reinterpreta em função dos problemas do momento: Édipo como emblema universal, Prometeu, Fausto ou Sísifo como espelhos de sociedades conquistadoras ou curvadas sob o jugo da tirania. Hoje, psiquiatras e sociólogos concordam que Narciso é o símbolo dos tempos de hoje.
'A res publica', escreve Lipovetsky, 'desvitalizou-se, e as grandes questões filosóficas, econômicas, políticas ou militares despertam aproximadamente a mesma curiosidade desenvolta que qualquer notícia de jornal; todas as 'alturas' afundam pouco a pouco, arrastadas na vasta operação social de neutralização e banalização. Apenas a esfera privada parece sair vitoriosa dessa onda de apatia; cuidar da saúde,  preservar sua situação material, livrar-se de seus 'complexos', esperar pelas férias: viver sem ideal, sem finalidade transcendente, tornou-se possível'(L'ère du vide, Gallimard).
Para o cristianismo, a vida não era mais que uma passagem, e sua culminação era mais importante que nosso peso carnal presente. Para nós, homens da modernidade, a vida é uma trajetória desprovida de sentido, que se estende de um nada a outro. Não temos mais como companheiros os anjos e os demônios, mas figuras múltiplas, às vezes grotescas, às vezes ridículas, do Absurdo.
Esse desgaste do sentimento de filiação a uma 'sucessão de gerações com raízes no passado e prolongamentos no futuro' que caracteriza, segundo Christopher Lasch, a sociedade narcísica, essa perda do sentimento da continuidade histórica, essa deserção do político em favor dos prazeres egoístas, essa incapacidade de enfrentar o presente de outro modo que não sob a forma do desespero para os mais lúcidos e da indiferença para as massas, em suma, essa diluição do sentido e dos valores já profetizada por um pensador do século XX: Alexis de Tocqueville. Em A democracia na América, livro quarto, capítulo seis, escreveu estas páginas premonitórias:
'Quero imaginar sob quais novos traços o despotismo poderia se produzir no mundo: vejo uma multidão incontável de homens semelhantes e iguais que giram incessantemente em torno de si mesmos para obter prazeres pequenos e vulgares com os quais preenchem sua alma. Cada um deles, em separado, é como um estranho ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos particulares formam para ele toda a espécie humana; quanto ao resto dos concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; ele os toca, mas não os sente; só existe em si mesmo e para si mesmo, e, se bem que ainda tenha uma família, pode-se dizer que pelo menos que não tem mais pátria.
Acima desses homens eleva-se um poder imenso e tutelar que se desincumbe, por si só, de lhes garantir os prazeres e velar por seu destino. É absoluto, detalhado, regular, previdente e gentil. Seria parecido com o poder paterno se, assim como este, tivesse a finalidade de preparar os homens para a idade viril; mas ele só procura, ao contrário, fixá-los imediatamente na infância; gosta que os cidadãos tenham prazer, contanto que não pretendam mais que o prazer. Trabalha de bom grado em favor de sua felicidade; mas pretende ser o único agente dessa felicidade, e seu único árbitro; prevê sua segurança, prevê e atende a suas necessidades, facilita seus prazeres, conduz seus negócios mais importantes, dirige sua indústria, rege suas sucessões, divide suas heranças; será que não pode lhes poupar inteiramente o esforço de pensar e a dor de viver?'.
O esforço de pensar e a dor de viver: trata-se precisamente disso nas entrevistas que reunimos aqui. Os psicanalistas(Léon Chertok, Ernest Federn, Erich Fromm, Jean Laplanche) se destacam entre os entrevistados. Sobre a gênese do ego, sobre a dissociação, sobre a depressão ou a melancolia, sobre essa paixão sem rival que é o ódio por si mesmo, sobre o trabalho da pulsão de morte e as figuras da repetição, eles disseram o essencial.  O mérito de Freud foi talvez menos de ordem terapêutica – afinal, toda a 'eficácia simbólica' em medicina se escoa por diversas práticas  - do que filosófica: ter mostrado, no rastro de Schopenhauer, que o fetal chama o letal, e todo o resto é sobrevida e sobressalto.
Foi também graças aos psicanalistas que compreendemos que as portas da loucura se abrem quando o sujeito não é reconhecido como 'outro'. Eles nos ensinaram, ao contrário dos psiquiatras clássicos, que o louco não está 'cortado do real', mas invadido por um excesso de real; ele é estimulado em demasia, acolhedor demais, excessivamente poroso ao mundo. Um crustáceo sem carapaça, um pássaro sem plumas, um guerreiro sem armadura.
O que exprime François Giauque, poeta suíço que, a exemplo de Artaud, foi um suicidado da sociedade:
 
'Parecemos
esses pássaros à deriva
que o vento deporta
de tormenta em tormenta
e que se lançam
ao assalto do sol
para cair calcinados
numa poeira de sangue'. 

'Nous ressemblons
ces oiseaux désemparés
que le vent déporte
de tempête em tempête
et qui s'élancent
à l 'assaut du soleil
pour retomber calcinés
dans une poussière de sang'.

A confusão dos sentimentos, com o desconcerto que engendra, conduz às vezes à loucura. A perda da identidade, a ausência de limites sensoriais, a impossibilidade de distinguir suas sensações das dos outros, a incapacidade de compreender as intenções daqueles que nos cercam, a submissão inexorável a rituais e a ordens absurdas estão entre as experiências mais amargas que um ser humano pode viver. Esta despossessão de si mesmo, este naufrágio da razão foram admiravelmente evocados por François Giauque ao falar do 'atroz anel de tristeza que ardia em torno de sua carne crispada'('l'atroce anneau de tristesse qui flambait autour de sa chair crispée').
Essas experiências-limites levam geralmente ao hospital psiquiátrico. Ninguém concorda em entrar nele por sua livre e espontânea vontade; e todos que o fizeram, por razões científicas ou pessoais, exigiram ser devolvidos com a maior urgência possível para a vida normal. Assim como a psicanálise é valorizada narcisicamente e socialmente, a internação psiquiátrica acentua o processo de invalidação e deixa estigmas indeléveis.
A que se deve então que, a despeito de reformas sucessivas, de tratamentos aparentemente cada vez mais eficazes, e de exemplos inegáveis de boa vontade, o hospital psiquiátrico apareça muitas vezes não só como um lugar de intolerável segregação, mas como uma versão leiga do inferno? Será devido aos pacientes que nele estão encerrados? Será em razão das violências a que são submetidos? Será porque a sua 'loucura' não é perdoada? Ou será, como disseram Thomas Szasz e Frango Basaglia, porque os hospitais psiquiátricos são os campos de concentração de nossas guerras civis não-declaradas? Digamos que o mérito da antipsiquiatria – seus três representantes mais eminentes, Thomas Szasz, Ronald Laing e Joseph Berke, se encontram neste livro – foi o de colocar essas questões e de propor alternativas concretas para a psiquiatria coercitiva, sob a forma de lugares de acolhida da loucura, insistindo no fato de que essas alternativas também são limitadas e sujeitas a crítica.
Esses formuladores da antipsiquiatria também questionaram o ato de etiquetar a pessoa que perturba e/ou que difere. Se a procura de saber do psiquiatra era outrora semelhante à do zoólogo, hoje ela dá lugar à indefinição do outro. Em relação a essa questão, desenvolvemos nos últimos anos uma atenção cada vez maior para o fato de que, a partir do momento em que o paciente é classificado numa nosografia, ele deixa a posição de sujeito com quem se fala para se tornar o objeto do qual se fala e do qual se dispõe. Aqui se poderia traçar um paralelo instrutivo com o zoólogo, para quem na própria medida em que se torna etólogo, o animal deixa de ser um simples tema de observação; passa a fazer parte de um 'campo comum' e, nele, o próprio observador também se encontra submetido às regras de relação sujeito-objeto. Pode-se encontrar o eco dessa evolução, bem como os debates sobre o lugar que se deve atribuir à hereditariedade, na maioria das entrevistas reunidas neste livro.
O problema central, porém, continua a ser o da identidade. A identidade é, para a pessoa, o que a unidade é para o texto; a identidade é a unidade que encontro em alguém quando examino como examino um texto. Prosseguindo nessa comparação, poder-se-ia associar o esquizofrênico a um livro mal paginado...
Lembremo-nos também da jovem que chorava aos soluços porque não sabia 'quem ela era'. Witold Gombrowicz dizia do homem que ele depende muito estreitamente de seu reflexo na alma do outro, 'mesmo que seja a de um cretino'. E num filme surpreendente, que é também uma fábula de nosso tempo, Zelig,  de nosso ser. Woody Allen retratou um personagem que se vê preso em um pesadelo interminável, a exemplo do camaleão que morre de esgotamento quando se encontra sobre uma manta escocesa. Rabino, quando se encontra com um rabino, xeque árabe entre os árabes, nazista entre a multidão fanatizada de Nuremberg, Zelig dispõe apenas de uma personalidade de borracha, em prejuízo do que aparece, por contraste, como a garantia do estatuto de ser humano: 'as identificações que dependem de uma genealogia afetiva, bem como imaginária, as fantasias de identificação ligadas a uma história e a uma pré-história pessoais'(Alain de Mijolla, Les visiteurs du moi, Les Belles Lettres).
Em sonho, somos outro, e percebemos que somos muitos, ou que não somos ninguém. Para o budismo, toda a vida se resolve na consciência do caráter fictício de nosso ser. 'Teatro de sombras', escreve um jovem filósofo francês, André Comte-Sponville, impregnado de budismo. 'Somos todos Narciso porque representamos todos essa comédia do eu. Fazemos de conta que somos alguém'(Le mythe d'Icare, PUF).
'Sim', acrescenta ele, 'todos sempre desempenhamos um papel, e tantos papéis diferentes quantas forem as pessoas diferentes com quem convivermos. O público faz o espetáculo... E também desempenha um papel, consequentemente, ou vários, em relação a si mesmo. Mentiras? Não. Nem isso. A mentira supõe uma verdade que se esconde, e aqui não há nada a esconder. Esses papéis ilusórios são a nossa  do realidade, e de nós, em nós, não resta a menor essência, senão a fugacidade perene das aparências'.
O eu talvez seja uma ilusão, um 'feixe de diferentes percepções', como dizia o filósofo David Hume, uma entidade verbal ou um fantasma metafísico. Mas se considerarmos o eu ao mesmo tempo como nosso centro de gravidade e nossa capacidade interior de resistência, parece-me difícil renunciar a ele. Vá lá que nossa personalidade social seja uma criação alheia. Mas que o nosso eu não seja mais do que isso, já me parece mais duvidoso.
A partir do momento em que nos convencemos do caráter supérfluo do 'eu', só podemos ser atraídos por um pessimismo maximalista, ainda mais sedutor esteticamente porque está cortado do real, esse traumatismo para o espírito.
Jean Granier, em 'O desejo do eu'(PUF), ironiza, com justiça, esse extremismo um tanto cômodo demais: 'O pessimismo maximalista é apenas uma variante terrorista repetida incessantemente pelos homens para trocar por uma certeza em relação a Tudo(seja ela afirmativa ou negativa) a angústia diante da situação existencial do eu'. Aqui, ele vai ao encontro do que a psicanálise nos ensina, a saber, que as convicções são o fruto envenenado de nosso sofrimento. Talvez fosse até mesmo possível reconhecer um homem saudável pelo fato de ele cultivar basicamente duas coisas: o prazer e a dúvida.
Jean Granier diz de modo admirável o quanto a primeira exigência da filosofia é que o próprio filósofo habite sua filosofia, que tenha a audácia de querer para si um eu. 'Não o eu das miragens do narcisismo e dos furores do egoísmo, mas o eu que, como conhecedor do seu destino, aceita o desafio que o Ser, soberbamente mas com uma indulgência amigável, lança desde sempre'.
Se hoje há um desafio por aceitar, é efetivamente o de desejar para si um eu, quer dizer, um gênio(É preciso exigir de cada um o gênio, mas não contar com isso. Um kantiano chamaria isso de imperativo categórico da genialidade' - Friedrich Schlegel), na medida que ser genial é ser simplesmente – mas quanta paciência, quanta esperteza, quanta atenção e trabalho são necessários para se chegar a essa simplicidade! - si mesmo. 'A cura', afirma François Roustang, 'é a genialidade em ação'.
No deserto supercivilizado que nunca para de se estender, deserto em que, dia a  dia, assistimos à humilhação do gênio pelo entendimento vulgar, do herói pela mediocridade hedonista, do criador pelo pedante, do escritor pelo escriba, do espírito livre pelo homem de chumbo, em suma, da exceção pela regra, a afirmação de si mesmo talvez seja a última maneira de abrir os braços à aventura, ou seja, de reencontrar o sal da existência.
Vamos terminar estas rapsódias do eu, dedicadas à moça que acrescentava à infelicidade de ter nascido a infelicidade de lhe terem recusado uma identidade, com esta velha lenda chinesa: Um peregrino certo dia procurou um grande sábio e lhe disse: 'Não consigo encontrar a paz de espírito. Peço-lhe que pacifique o meu espírito'. E o sábio respondeu: 'Basta me trazer seu espírito, que eu o pacificarei'. 'Durante muitos anos', respondeu o peregrino, 'procurei o meu espírito, mas não consegui encontrá-lo'. 'Então é porque ele já está pacificado', concluiu o sábio.
 
Roland Jaccard
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2] Série Estudiosos: Frédéric Gaussen
Uma das obras da coletânea de entrevistas do Le Monde, jornal francês, está a La Société, A Sociedade, de 1985. Fazem parte dessa edição, por categorias, O indivíduo e a sociedade (Élisabeth Badinter, Raymond Boudon, Robert Castel, Christopher Lasch, Gérard Mendel, Serge Moscovici, Carl Rogers, Richard Sennett), Os intelectuais e a ideologia ( Pierre Bourdieu, François Bourricaud, Umberto Eco), Em torno do marxismo (Pierre Fougeyrollas, Maurice Godelier, Claude Lefort, Maximilien Rubel, Alexandre Zinoviev), O homem a sociedade de amanhã (Pierre Cazamian, André Gorz, Alain Minc, Terry Winograd). Neste, a tradução também é de Sérgio Flaksman, e a introdução de Frédéric Gaussen, jornalista francês. Todas as peças saíram pela editora Ática.
 
O Campo da Liberdade
Introdução

O 'comunismo' universal
Como foi que o século XX, que devia ser o Século das Luzes, do progresso científico e econômico, das maiores vitórias da inteligência, pode se tornar também o tempo das maiores opressões – aquele onde o homem se encontrou despojado em mais alto grau de si mesmo? Essa questão, que não deixa de assolar a consciência moderna, está no centro dos diálogos reunidos nesta coletânea.
Não que eles enfatizem as grandes perversões coletivas que marcaram nosso tempo. Trata-se neles pouco do nazismo, do holocausto, do gulag – dessas ondas de barbárie que tanto perturbaram o mundo contemporâneo, mas que não foram, afinal, as primeiras monstruosidades da História. O passado da humanidade fervilha de massacres, de destruições, de déspotas sanguinários. E o homem é feito de tal maneira que sua capacidade de renascer, de esquecer e de se reproduzir é inifinita.
Não, a opressão de que se trata aqui é mais secreta, mais disfarçada, e também mais implacável. É aquela que a sociedade, ao se desenvolver, exerce insidiosamente sobre si mesma. É a opressão da organização, da coletividade sobre si própria. Como se o preço que os homens devessem pagar, nesta lenta construção do edifício social, fosse precisamente a alienação do indivíduo, a perda do sujeito.
Egresso do universo totalitário, o lógico soviético Alexandre Zinoviev nos fez afirmações paradoxais: o totalitarismo soviético, nos disse ele, é apenas uma figura extrema e desnaturada de uma realidade universal do mundo moderno. O que ele chama de 'comunismo' – isto é, a forma mais acabada da vida em sociedade – não é uma particularidade dos países do Leste: ele está em toda parte, em cada um de nós, em todas as regiões do mundo. 'As relações de tipo comunista entre os grupos sociais, diz ele, nascem da necessidade que têm os homens de viverem juntos. Depois elas encontraram seu terreno no Leste, onde excluíram qualquer outra forma de relação. São relações de coordenação e subordinação que também se encontram aqui [no Ocidente] em certas unidades sociais, nas empresas, no exército, na polícia, na burocracia, nas gangues de criminosos. Pode-se mudar de regime político, pode-se fazer cessar o totalitarismo, mas não se pode fazer cessar os fundamentos sociais do comunismo, que são exatamente os mesmos da vida humana em sociedade'.
Visão trágica do inferno social, alimentada por uma experiência histórica sentida por muitos como a maior traição de nossa época? Talvez. Mas essa concepção sem ilusão da vida coletiva é compartilhada por vários observadores vindos de outros horizontes. O sociólogo americano Christopher Lasch, o filósofo André Gorz, o ergônomo Pierre Cazamian mostram como o desenvolvimento da indústria, a racionalização do trabalho, a promoção do consumo só puderam se dar ao preço da alienação do indivíduo, gerido como um elemento passivo da maquinaria produtivista, reduzido à sua simples função de agente econômico. Para Pierre Cazamian, os engenheiros encarregados de organizar a produção não fizeram mais que reproduzir na gestão das empresas os modelos técnico-científicos que aprenderam em suas escolas. 'Esses modelos se apoiam unicamente nas ciências da matéria. Recebendo a missão de organizar o sistema homem-máquina e ignorando o homem, eles raciocinaram em termos de máquinas. E não descansaram enquanto não transformaram o homem em máquina, enquanto não obtiveram dele um comportamento tipificado, repetitivo e sempre parcial'.
Homem-máquina, coisificado, dilacerado. Homem-objeto, cuja alienação não se limita à esfera econômica, mas se estende a todos os campos de seu ser, público e privado, a seus desejos, sua vontade, suas motivações inconscientes. Muitas pessoas presentes neste volume se perguntam sobre os mecanismos misteriosos do poder exercido pelo social sobre o indivíduo. Poder de múltiplas faces, cujos reflexos infinitamente reproduzidos vão da empresa à família, do exército aos partidos políticos, em todo lugar onde exista vida em grupo. Para o sociopsicanalista Gérard Mendel, é ao personagem do pai que conduz essa busca da fonte da autoridade. São inúmeros os falsos pais, que, apoderando-se da máscara do pai legítimo, encaixam-se nesse molde autoritário para manipular os homens a seu gosto.
O sociólogo Richard Sennet encontra no modelo patriarcal tanto o capitalismo selvagem quando a sociedade soviética. Tanto Pullman quanto Stalin: 'A forma mais interessante do paternalismo aparece no socialismo de Estado. O herdeiro do patrão capitalista do século XIX é o líder comunista do século XX, que se serve de imagens paternalistas para legitimar seu poder'. O Estado-Providência não é, nas democracias modernas, a forma mais acabada desse controle dos indivíduos por uma burocracia tutelar, provedora do trabalho e da segurança, dos encargos e das recompensas? 'Na melhor das hipóteses, um governo para o povo, mas certamente não pelo povo', observa Christopher Lasch.
O poder pode ser violento. Mas na maior parte das vezes não precisa da força para impor a sua lei. O antropólogo marxista Maurice Godelier observa que, em todas as sociedades humanas, a servidão é amplamente voluntária, de tal modo são hábeis os dominadores em convencer os dominados do caráter tanto natural quanto necessário da hierarquia social. O Estado moderno dispõe, para exercer sua sedução, de armas novas, marcadas pelo encanto da ciência e da modernidade. Robert Castel assinala o papel desempenhado pela cultura psicológica no enquadramento e na normalização dos indivíduos. A psicologização, ao lado da informação, tornou-se um instrumento particularmente eficiente para assegurar a gestão suave da ordem social, seja no domínio da infância, da vida familiar ou da empresa.
Mas os psicólogos são só alguns dos inúmeros especialistas que pouco a pouco se encarregam da vida pessoal e social, esforçando-se por controlar a educação, a sexualidade, a saúde, a justiça, o trabalho, o lazer, o consumo. Especialistas que substituem os pais para aconselhar, morigerar, orientar, guiar as crianças que todos somos face da complexidade crescente da vida coletiva.
A busca da autonomia
É verdade que se devem evitar os amálgamas apressados ou ver a sombra do gulag e do totalitarismo perfilar-se por trás das iniquidades da sociedade 'burguesa'. O próprio Zinoviev o reconhece: existem nos países ocidentais algumas barreiras – a religião, a moral, a literatura, os direitos humanos – que impedem esses regimes de se confundirem com os do Leste. Da mesma forma, Claude Lefort insiste na aquisição da democracia impropriamente chamada, segundo ele, 'burguesa' (porque ela se deve mais às lutas do movimento operário que à generosidade da burguesia). Para ele, não é o caso de se descartar a democracia 'formal' em nome de uma hipotética democracia 'real'.
Mas o que os autores aqui entrevistados querem dizer é que a sociedade, ao mesmo tempo que assegura a sobrevida e a subsistência dos indivíduos, traz em si um risco maior, que é precisamente a negação do indivíduo em nome dos interesses superiores da organização. É a institucionalização de uma razão de Estado, culminando no silêncio, na uniformidade, na anulação das diferenças. É por isso que percorre todas as entrevistas a procura lancinante da autonomia, da autenticidade, de uma ordem diferente, que não seria mais programada nem imposta, mas produzida por uma infinidade de sujeitos criadores.
Essa conquista da atividade criadora passa para muitos pela constituição, no seio da sociedade civil, de novos espaços de liberdade, de esferas autônomas, independentes das grandes burocracias econômicas ou estatais. Trata-se das 'oficinas' autogeridas com as quais trabalha o psicossociólogo Carl Rogers; os empreendimentos inovadores suscitados pelo mercado, que propõe Alain Minc; as atividades de trabalho e de lazer livremente inventadas pelos indivíduos, preconizadas por André Gorz; as propostas e iniciativas das minorias ativas, apoiadas por Serge Moscovici; os recursos infinitos de comunicação fornecidos pelas redes informatizadas, imaginadas por Terry Winograd; as instâncias descentralizadas de produção que preconiza Christopher Lasch.
Para todos esses pesquisadores, as transformações necessárias da ordem social não se colocam mais em termos de tomada do poder central; elas só podem provir de uma ação subversiva conduzida no próprio seio da sociedade. Nenhum aparelho político, nenhuma classe social pode ter a vocação de fazer a História. Esta só pode ser o resultado de iniciativas descentralizadas, de tensões internas, da vontade que têm os cidadãos de afirmar sua identidade e suas aptidões criativas, em face das programações redutoras das grandes organizações.
Muitos conviriam, como Élisabeth Badinter, que uma das transformações sociais mais radicais deste século foi a modificação da posição da mulher nas sociedades ocidentais, e especialmente na França. Em poucos anos, o feminismo transformou relações de autoridades milenares, abalou uma forma de alienação considerada por muito tempo natural. Não será esse o melhor exemplo de 'revolução tranquila', na expressão de Carl Rogers – ou seja, uma mutação profunda das relações interpessoais ao nível de uma coletividade, uma inversão de uma ordem injusta, antes considerada imutável?
O que podem fazer os intelectuais
A luta feminista foi conduzida ao mesmo tempo pela massa das mulheres e por alguns porta-vozes de prestígio. No momento em que o papel das ideologias parece ser recolocado em questão, em que praticamente não há mais grandes corpos de doutrina capazes de mobilizar as multidões, qual pode ser o lugar desses grandes fabricantes de mitos que são os intelectuais – e mais particularmente dos que trabalham com as ciências sociais?
Embora a imagem carismática do grande líder de opinião não pareça mais adequada – e Maximilien Rubel, o comentador de Marx, insiste no fato de que o pensamento de Marx foi destruído pelos mesmos que o reivindicavam -, ainda assim o intelectual não abdica dela. No entanto, cidadão de um universo dilacerado, ele não pode mais pretender dar uma coerência universal ao que é fundamentalmente descontínuo. Alguns, como Carl Rogers ou Serge Moscovici, reivindicam, para o pesquisador em ciências sociais, uma posição de analista no seio das coletividades em movimento. Especialista envolvido no grupo iniciador da mudança, ele acompanha e a ajuda a se identificar e a se avaliar.
Para François Bourricaud, o pesquisador em ciências sociais pode desempenhar um papel de conselheiro e perito junto a quem toma as decisões, mas com a condição de que as instituições – como no caso dos Estados Unidos – sejam suficientemente flexíveis e diversificadas para que uma comunicação possa se estabelecer. O diálogo na cúpula entre o Príncipe e seu conselheiro lhe parece uma imagem vazia e mistificadora, porque é a própria realidade de um poder assim centralizado é muito complexa e inabordável.
Esse diálogo de cúpula é igualmente refutado pelo sociólogo marxista Pierre Fougeyrollas, mas em nome de uma outra lógica: para ele, a ciência política, como as ciências sociais em geral, sofre de uma fraqueza congênita, que é sua pretensão a se acreditar independente das relações de classe e das influências da ideologia dominante.
Da mesma forma como não há mais uma sociedade, não poderia haver uma teoria da sociedade e da mudança social. Para Raymond Boudon, a ideia de uma teoria capaz de dar conta da totalidade do social é utópica e anticientífica. A tarefa da sociologia é elaborar teorias parciais, capazes de explicar fragmentos – devidamente arrolados – da realidade social. Raymond Boudon quer também lutar contra a ideia redutora segundo a qual a sociedade seria composta de massas cegas em movimento. Para ele, uma ação coletiva não é mais que a soma de ações individuais que respondem a interesses particulares e que têm por consequência uma certa racionalidade – mesmo que os resultados obtidos nem sempre correspondam às intenções dos atores, o que explica aqueilo que chama de efeitos perversos.
Mas o papel do intelectual na sociedade contemporânea é possivelmente menos o de dizer a verdade – ainda que parcial – que passar para ela uma imagem de si mesma na qual possa se reconhecer. É o que sugere Umberto Eco quando diz que o lugar do sociólogo é estar presente nos locais públicos onde se elaboram as novas imagens e as novas relações humanas. Não para mergulhar neles, como ocorre com os fascinados pela sociedade dos meios de comunicação de massa, mas para lá recolher a matéria de sua própria reflexão.
Da mesma forma, Pierre Bourdieu explica que a tarefa da sociologia é mostrar aos homens as origens de seus comportamentos e de suas opiniões, e os limites de suas ações, não para encerrá-los em um conhecimento paralisante dos determinismos que pesam sobre eles, mas para ajudá-los, com toda a lucidez, a avaliar o possível e a apreciar as consequências previsíveis de suas decisões. 'A ciência social, diz ele, não estaria cumprindo mal seu papel se pudesse se erguer ao mesmo tempo contra o voluntarismo irresponsável e contra o cientificismo fatalista'.
Programa modesto, é certo. Mas na medida de uma época que, tendo sofrido muito devido a seus profetas, tem uma tendẽncia excessiva a se entregar à fatalidade... O que Pierre Bourdieu procura determinar é o campo estreito no interior do qual pode desenrolar-se, sem risco de se perder, a luta incessante pela liberdade.
 
Frédéric Gaussen
 
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3] Série Estudiosos: Bertrand-Poirot Delpech
Uma das obras da coletânea de entrevistas do Le Monde, jornal francês, está a Littératures, Literaturas, de 1984. Fazem parte dessa edição, Saul Bellow, André Brink, Italo Calvino, Albert Cohen, Mahmoud Darwich, Friedrich Dürrenmatt, Max Frisch, Pierre Goldman, John Irving, Edmond Jabès, Charles Juliet, Ernst Jünger, Yachar Kemal, Wolfgang Koeppen, Mario Luzi, Norman Mailer, Mouloud Mammeri, Isaac Bashevis Singer. Neste, a tradução é de Marina Appenzeller, e a introdução de Betrand-Poirot Delpech, jornalista, ensaísta e romancista francês. Todas as peças saíram pela editora Ática.
 
Do Geral ao Particular
Introdução

'O século XXI será ou não religioso?'
Ninguém teria a ideia de fazer uma pergunta tão inútil – dessas que nossa época tanto aprecia – a seu dentista ou a seu mecânico, depois de estar com os dentes em ordem, ou o carro chegando a 140. Eles arregalariam os olhos e o mandariam consultar um astrólogo.
Mas faça a mesma experiência com o primeiro intelectual que encontrar, ou com o mais obscuro poeta que edita seus versos por conta própria: eles não tardariam a oferecer ao mundo inteiro as suas opiniões. A megalomania e o profetismo desses que Valèry chamava de 'encarregados das coisas vagas' só têm rival na necessidade das multidões de entregar-se a gurus oniscientes.
Esse intercâmbio de ilusões é particularmente próspero na França. Sua origem está no romantismo, que considerava o talento literário um dom dos céus e uma garantia de familiaridade com os deuses. O caso Dreyfus institucionalizou esse magistério, dando-lhe uma abordagem leiga. Vieram depois os debates sobre o fascismo e o comunismo. Seus astros foram Malraux e Sartre, que fizeram com que a História descesse à rua e a Filosofia ao terraço dos cafés.
O prestígio de que esses autores desfrutaram, sua fama de oráculos, deu origem a muitos êmulos. Houve tempo – durante a guerra e o pós-guerra – em que todo autor se metia a fazer análises e predições. Se o Quartier Latin ria tanto de Ferdinand Lop, não é porque ele fosse um louco isolado, mas sim porque representava o sintoma de uma pretensão muito difundida.
O declínio das ideologias que se observa nos últimos anos não extinguiu a vontade do público de interpelar os intelectuais sobre questões totalmente fora da sua alçada; nem tampouco extinguiu a tentação dos interpelados de corresponder a essa expectativa tão lisonjeira. O fato de se enganarem tanto não os detêm, muito pelo contrário: os mesmos profetas dogmáticos afirmam  despudoradamente verdades contraditórias, e o intervalo entre os seus desmentidos diminui a olhos vistos. Quanto mais o pretenso mestre se equivoca, mais lhe concedem a palavra. O direito ao erro levou a melhor sobre o erro, em nome de adágios como 'só os tolos não mudam de opinião', ou 'o arrependimento
sabe bem do que está falando'.
Mesmo os espíritos mais alertas contra a tentação de pontificar a respeito de tudo se vêem forçados pela mídia a fazê-lo, em virtude do crédito que já adquiriram em suas respectivas disciplinas. Após o lançamento de suas Memórias, pouco antes de sua morte, Raymond Aron falou-me de sua surpresa irritada diante da insistência do público, ou ao menos de seus mandatários implícitos, em fazê-lo mentor intelectual a respeito de tudo. Aron tinha de refrear-se o tempo todo para não ditar o que era verdadeiro e correto.  Ele via nessa pressão uma consequência do silêncio dos partidos e das igrejas, que deixa insatisfeita nossa necessidade de ter um pai que sabe tudo e dita os nossos comportamentos. Ora, por que a necessidade de ser amado, que se encontra na origem de qualquer vocação literária, iria predispor alguém a conhecer instintivamente a ciência política e a elaborar raciocínios corretos a respeito?
No verão de 1983, Claude Lévi-Strauss teve a imprudência de acreditar que, ao participar de um programa de rádio de grande audiência, poderia limitar-se, durante cinco horas por semana, a falar de antropologia e das estruturas do parentesco. Toda vez que puxavam os assuntos da moda – Deus, a morte, o futuro da humanidade – ele se irritava, em vão, com o fato de que sua reputação num único setor, aliás bem restrito, das ciências humanas, o fizesse ser tratado como mentor intelectual em todo e qualquer assunto. Como se um campeão de salto com vara pudesse ditar normas sobre o cross-country com esquis!
Max Frisch resume perfeitamente numa das entrevistas que leremos o absurdo que é interpelar pessoas em evidência fora do seu campo estrito. Às vezes pedem ao autor que conte aquilo que escreveu em seus livros, o que ele forçosamente fará menos bem; ou então o induzem a falar sobre o que não conhece, o que é ridículo.
Le Monde tinha plena consciência desse obstáculo quando se propôs a entrevistar alguns dos melhores técnicos do conhecimento e artistas do texto. Não lhes pediu que lessem o futuro do planeta na borra de café, mas sim que nos esclarecessem a respeito de sua 'situação' pessoal. Em que as circunstâncias do seu nascimento, de seu ambiente social, as suas raízes e os caminhos que percorreram determinaram e alimentaram sua obra? Retomando a definição sartriana de liberdade, o que fizeram daquilo que os fez? Afinal, a literatura não cai do céu! Não passa da resultante de um destino, da produção de uma sociedade.
As respostas coletadas aqui não excluem as generalizações, e estas por vezes se parecem, uma vez que a atualidade mundial é comum a todos. Em toda a parte, para todos, os anos oitenta marcam o final das crenças totalizantes e dos modelos. Não existe mais pátria da Revolução, a qual não mais representa a passagem obrigatória para o progresso, ele próprio posto em dúvida. A História deixou de parecer explicável e corrigível. Nem por isso tudo se torna possível, como diz Dostoiévski a propósito da 'morte de Deus'. A noção de 'direitos humanos' ocupou o terreno perdido pelo marxismo; mas constata-se no Ocidente um retrocesso geral ao fatalismo e ao individualismo que chega até o narcisismo, enquanto numa parte do Terceiro Mundo desenvolve-se um novo integrismo muçulmano. Os únicos que parecem conservar certa consciência da tragédia humana são os escritores, em número cada vez maior, que o destino lançou no exílio, dispersos entre diversas línguas e culturas. Não é por acaso que eles se encontram em maioria nessas páginas.
Entre estes cidadãos do mundo notaremos o africâner André Brink, para quem o texto conserva seu caráter de ação urgente; o italiano Italo Calvino, que pede à literatura que nos redima de uma linguagem política inoperante e invasora; Albert Cohen, o judeu mediterrâneo que se integra  com dificuldade ao norte da Europa e em quem essa tragicomédia particular assume, pelo efeito da arte, um significado universal.
Os exilados são mais sensíveis que os outros às injustiças, às repressões. São eles que mantém nesse ponto uma consciência e uma moral sempre prontas a vacilar sob o efeito do egoísmo e das razões de Estado. Vão nesse sentido as reflexões de um Edmond Jabés ou de um Isaac Singer, que nos ajudam a falar das obras do espírito fora dos critérios políticos e de utilidade social que tanto obcecaram a sua geração.
Antigamente, avaliava-se a influência dos criadores pelo poder de seu país ou de sua língua. É uma característica do século XX, aqui refletida, que as obras decisivas nascem dentro de pequenos Estados, de minorias, de comunidades em trânsito, de perfeitos solitários. Encontra-se aí o princípio do máximo de particular produzindo o máximo de geral, da singularidade portadora de universal. É o judeu Kafka anunciando, de Praga, a culpabilidade totalitária; é o irlandês Joyce reconstituindo, em Zurique, uma Dublin de sonho à imagem de toda a humanidade. É Beckett, outro irlandês, conciliando o nonsense do Norte e o canto latino. São os romenos de Paris: Ionesco, Cioran, Eliade. A dissidência vinda da URSS e dos países satélites deu origem a obras que a ultrapassam: Soljenítsin, Kundera.
É sintomático encontrar pelo menos dois suíços de língua alemã entre os escritores que colocaram em forma de romance e de teatro a crise do pensamento europeu: Max Frisch e Friedrich Dürrenmatt. Melhor que Ernst Jünger – demasiado ligado à loucura nazista, mesmo que seja para livrar-se de sua marca - , os dois dramaturgos voltaram para a História o olhar de nações tão pequenas que nela não podem desempenhar um papel. Vista do terraço suíço, que é quase o ponto de vista da inocência, a última guerra aparece em todo o seu terror grotesco. Com a ajuda de Brecht, vemos que Frisch e Dürrenmatt passaram gradualmente do naturalismo ao didatismo. Depois fizeram o percurso inverso, como quase todos os escritores entre 1960 e 1980, voltando as costas ao marxismo, ao vocabulário político, só acreditando na liberação individual, longe das velhas justificativas sociais, através da sinceridade e da poesia.
Veremos que uma grande proporção dos entrevistados provém do judaísmo. Não se trata de uma opção, mas do reflexo de uma evidência. A tradição e a História herdadas por esses autores os preparam para captar melhor uma época em que se apagam as fronteiras territoriais e ideológicas, em que se deve reinventar uma moral sobre os escombros de outras morais falidas. Pierre Goldman, assassinado em 1979 após célebres disputas com a Justiça, apátrida declarado, falava com a franqueza absoluta que impede as ideias feitas. Apenas ele poderia evocar, como o faz, os desvios dos judeus stalinistas e anunciar o reencontro da direita e da extrema direita francesas. Observando com mais atenção, vemos que ele não lida com ideias, mas com emoções, explosivas porque irrecusáveis.
A França cartesiana subestima o peso das emoções nos acontecimentos, principalmente na reunião das famílias políticas vizinhas. Assim, subestima o papel da literatura e de seus vários gêneros. Não são os ensaios que exercem mais influência sobre a História. São as peças, os filmes, os romances. As ideias progridem pouco; elas pisam e repisam. O único progresso verdadeiro é o das sensações e, portanto, da arte.
 
Bertrand-Poirot Delpech
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minha primeira versão, para a série:

 
Série Estudiosos: O Indivíduo, A Sociedade e Literaturas

 
Desde o ano de 2009 que venho mastigando os textos traduzidos, via Editora Ática, da coletânea de entrevistas da década de 1980, pelo jornal francês Le Monde.  Época de blog, antes da página (morenocris) ponto org. Disponibilizei frases, pensamentos e, de alguns estudiosos produzi posts, a maioria está na vitrine do sítio, em flash. Contudo, prometi que daria uma finalização digna de reconhecimento para a coleção. É o que faço agora, aproveitando o gancho da crise global. Os pensamentos de hoje, por incrível que possa parecer, são as mesmas inquietações de antes. Na coletânea 'Literaturas', fiz a opção, mais detalhadamente, de Saul Bellow, Mahmoud Darwich, Yachar Kemal, Wolfgang Koeppen, Mario Luzi, Mouloud Mammeri. No livro sobre 'O Indivíduo', destaquei Ernest Federn, Richard Lewontin, Erich Fromm, Hubertus Tellenbach. E na 'A Sociedade', tirei a entrevista completa de Élisabeth Badinter.
Se o morenocris fosse o 'Le Monde', daria uma nova roupagem, quer dizer, atualizaria os pensamentos, com novos estudiosos e os que ainda estão vivos e que participaram dessas edições. Seria interessante. Mas não foi só na França que se discutiu a década. No Brasil, nossa mídia fazia o mesmo, como por exemplo, Florestan Fernandes, na Folha de São Paulo, entre outros veículos com os inúmeros estudiosos brasileiros.
Percebo que precisamos exercitar as ideias, os pensamentos, o conhecimento. Percebo que somos carentes em análises dos movimentos de mundo. Falo de meu Estado. Temos inúmeros mestres, doutores e pós-doutores. Faz-se necessário levar todo esse dicionário para as mídias locais. Abrir as mentes de quem produz, quem participa e de quem ler, ouve, vê e se conecta.
    
Cris Moreno
 
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