Que, a partir de 2014....

Possamos olhar para os lados....

Possamos olhar para a frente....



Possamos olhar para trás, sem o sentido de invenção....


Quando conversamos com a dona Lourdes Moreira, 83, temos o sentimento de que ela está inventando tudo, como se estivesse nos contando uma estória, tal a distância do presente com o passado, não no tempo, necessariamente, mas no abandono que submergiu o mundo em que viveu. É como uma camada que foi se sobrepondo a outra, rapidamente, para apagar a história física, de pedra, paredes, paralelepípedos.... Vamos penetrar nessa camada submersa? Ela inicia assim: ‘Meu avô foi de bonde buscar a parteira para eu nascer. Nasci no dia 1º de maio de 1930. Íamos à praça, com a minha mãe e minhas irmãs(2) e nunca houve violência. Me formei com 14 anos, em Contabilista e estudava na escola:  inglês, francês, música, fazia ginástica(Educação Física), teatro. Até os meus cinco anos de idade, morávamos na Av. Portugal, entre 13 de maio e João Alfredo, nos altos. Depois, nos mudamos para a 13 de maio com a 7 de Setembro, 174(nos altos). Nos ‘altos’, porque todos morávamos no Centro Comercial, em cima de nossos comércios. Meu avô tinha um restaurante chamado ‘Restaurante do Parque’. Toda a minha família é originária de portugueses. Lembro-me que gente ilustre e alguns políticos e comerciantes portugueses habitavam esse mundo. Eram meus vizinhos: Sr. Domingos Bastos, da Padaria Vitória, Sra. Lourdes Morgado, da Fábrica de Calçados, as Famílias Otero(restaurante), Bonain(armarinho), Alfredo Cunha(alfaiataria), Mendes(distribuidora de gelo), Amoedo(tabacaria), Carlos Diniz(Leão da América-mercearia), Monteiro(joalheria-ótica).... Estou viúva há 11 anos. Meu marido foi o fundador da fábrica de refrigerantes GuaraSuco. Um homem que estava além de seu tempo. Sinto saudade de minha infância e, de vez em quando, visito o espaço em que vivi boa parte de minha vida(boa em tudo)'. Dona Lourdes divide a administração da Risque & Rabisque(lojas) com a filha, única menina de três filhos. Quando ela começa a chorar, encerro a revisitação dessa memória que parece que nunca existiu. O ano seguinte já está na porta e a cada virada, nos chega o aniversário de Belém, 12 de janeiro....