Poesia: Lúcio Flávio Pinto


À sombra do arco-íris

Olho o tempo, o sol,

meu quarto. Olho

os homens apressados e suas

panaceias, os ácidos lisérgicos, o político

pregando a honradez. Um homem

caminha pela chuva com seu chale

de turmalinas. Todos olham

e eu não sei por que

estas coisas me interessam.

Junto à tabacaria as crianças

já não se importam que os adultos

descubram metafísicas

no papel prateado de enrolar chocolate.

Ontem à tarde eu ri –

                                    pulmão distendido, alguém

me disse que os jovens são capazes de milagres.

Me arrependi

                       em seguida

                                          como sempre

mas não chorei

desta vez.

Andei sem rumo pelas ruas

e

numa esquina

um índio carajá tropeçou em mim,

pediu desculpas

e todos riram.

Menos eu.

Reuni os amigos e declarei, solene:

a vida não é nada disso.

Ninguém acreditou

Nem pude exigir atenção: afinal, me disseram,

o ar está carregado de negativas.

Sugeriram alka-seltezer

mas eu lembrei:

décadas antes

a moda (

sorri

)

era o éter. Hoje

ninguém espera colher flores

no arco-íris.

Tentei encostar minha cabeça

no primeiro ombro desocupado

mas o dono era magro,

pediu desculpas

para meus olhos encrespados

e se foi.

Quando a manhã se espichou

por entre as árvores

tentei seguir o caminho

e caminho não havia:

me perdi

outra vez


(1967)