Vannucchi, Chartier e Burke, definições de cultura e cultura popular: Karine Pedrosa


Aldo Vannucchi em “Cultura Brasileira - o que é como se faz” define cultura como a auto-realização da pessoa humana, ação no seu mundo em uma dimensão social que se cristaliza nos planos do conhecimento teórico, da sensibilidade e da comunicação. Roger Chartier em “Cultura popular: Revisitando um conceito historiográfico” entende Cultura como identidades em expressão que lidam com a norma e o vivido, agindo entre sentido visado e sentido produzido. Peter Burke percebe cultura como manifestação humana dependente de variáveis como região, ocupação da pessoa, gênero, língua. Para os três autores há culturas humanas e essas culturas são as práticas e representações.
 
Chartier aponta que a cultura popular é uma categoria erudita que considera as formas de apropriação das identidades expressadas pelos grupos e indivíduos. A expressão popular é uma classificação que é apropriada de diferentes modos, segundo Roger, a cultura popular se inscreve em uma ordem de legitimidade cultural que lhe impõe uma representação de sua própria dependência enquanto Burke percebe a cultura popular como um dos resultados da coexistência de várias subculturas, encontros, conflitos, ou seja, cultura popular dentro de uma medida de relações mais ou menos tensionadas.

Os autores desconstroem os conceitos usuais de cultura popular em busca da compreensão das diversas expressões de humanos e de grupos humanos que, por tal condição de espécie, agem e pensam culturando-se, produzindo e consumindo cultura em dada localidade, com múltiplas variáveis.

O historiador Peter Burke contribui para as atuais discussões antropológicas quando levanta a possibilidade da tradição durkheimiana de olhar a cultura como um todo, desconsiderando as subculturas, cometer o mesmo erro que a filosofia medieval com a ideia de cultura homogênea. Chartier aponta, no séc. XIX, o fato de apesar da mercadorização em massa dos signos da legitimidade cultural o intercâmbio entre cultura letrada e cultura popular perdurou. Para este autor a resposta cultural dos dominados vem em forma de resignação, negação, constatação, imitação e recalque. O alerta para o antropólogo vem com a noção de compreender cultura popular inscrita em um espaço de enfrentamento onde, dominação simbólica, modos de consumo, legitimidade, bem como táticas de produção de sentido estão dispostas em função do tempo e da localidade. A livre criação de sentido flutua sobre os signos linguísticos. É, para Roger Chartier, devida a reconstrução de regras e limites para a representação letrada do popular. A Cultura popular está fortemente unida a cultura letrada, aquela é, pois, objeto desta.

Em “Cultura Popular: revisitando um conceito historiográfico”, no trecho “O que mudou, evidentemente, foi a maneira pela qual essas identidades puderam se enunciar e se afirmar, fazendo uso inclusive dos próprios meios destinados a aniquilá-las”, em que Roger Chatier refere-se aos hábitos, sentidos e pensamentos dos povos sujeitos as culturas reformadas, contrarreformadas e absolutistas que fazem parte da “grande narrativa histórica da civilização ocidental”, faz-se evidente a capacidade de adaptação do popular.

Menos rígida, menos interessada em complexas estruturas para a manutenção da dominação, as formas de manifestação desses povos puderam acoplar-se aos signos impostos, não alterando o significado, mas viabilizando pelo significante um código metafísico, mais ou menos compreendido pela rigidez da cultura letrada. A categorização da cultura popular dentro da cultura erudita é um recurso de produção de conhecimento que, tipificando, tenta perceber e situar a ação humana em reação à dominação. Essa reação precisa ser desvendada, classificada e inserida em um contexto cultural erudito para que se prossiga o processo de dominação, a incorporação dos saberes/fazeres vem após a tentativa falha de aniquilamento cultural.

Os códigos dos diferentes povos que entremeiam as manifestações culturais brasileiras decifram-se via compartilhamento de experiências da vida material, nem são apenas facetas da cultura dominante, nem tampouco independentes desta, estão inscritas nos símbolos nacionais e são significantes na experiência e pela experiência compreendidos.