'o superdotado é invisível': silvia oliveira do naahs

enquanto alguns estados brasileiros estão extinguindo os núcleos de altas habilidades/superdotação (naah/s), o pará vai à contramão, trabalha para se transformar em um centro de referência na área.

imagem: cris moreno
ana silvia de souza oliveira, 42, pedagoga, com mestrado em ciências ambientais, e dissertação de pesquisa sobre a etnia indígena asuriní do xingu, além da especialização em educação inclusiva, coordena o núcleo de atividades de altas habilidades/superdotação (naah/s), vinculado a coordenadoria de educação especial da secretaria de estado de educação (seduc/pa).
o naah/s é o núcleo de referência para o atendimento de alunos com altas habilidades ou superdotação, e atende todo o sistema educacional do pará – municipal, estadual e privada. esse atendimento do núcleo, pela legislação, está inserido no atendimento educacional especializado (aee). ‘o estado do pará já trabalha com essa clientela desde 1981, só que o naah/s foi implantado em 2006, aqui no pará e em todos os estados do brasil, por meio da parceria entre o ministério da educação e as seduc's', explica oliveira.
o naah/s dispõe, além da coordenadoria, de duas psicólogas e uma pedagoga. os professores são das disciplinas de matemática, história, literatura e inglês, artes visuais, plásticas e cênicas, ciências biológicas e língua portuguesa. o núcleo funciona nas dependências da escola estadual de ensino fundamental e médio vilhena alves, avenida magalhães barata, esquina com a três de maio(fone: 3229.5581). o atendimento aos alunos com altas habilidades também se estende nos municípios de abaetetuba e santarém. professores, alunos e famílias são contemplados com o programa.
as altas habilidades devem ser potencializadas. 'nem sempre o aluno com altas habilidades tem sucesso na escola, por exemplo, esse aluno pode ter altas habilidades em artes e apresentar fracasso em língua portuguesa, e é aí que entra o trabalho do naah/s. o atendimento educacional especializado é uma maneira de trabalhar o currículo da escola na forma complementar ou suplementar, dependendo da especificidade daquele aluno, por isso trabalhamos com o plano individual do aluno (pdi). no projeto observamos que os alunos apresentam interesses e têm características diferentes. nós temos muitas experiências exitosas, dentre elas o ex-aluno juvenal damasceno, que trabalha no mangal das garças (borboletário), e que agora retorna ao núcleo como um de nossos monitores. o ex-aluno adriel, que toca saxofone na sol informática é outro exemplo, assim como inúmeros outros que passaram pelo núcleo e hoje exercem várias atividades profissionais. atualmente trabalhamos com a média de 50 alunos no naah/s, com a pretensão de expandir esse atendimento, por isso estamos divulgando o serviço do núcleo. outro aspecto relevante é a estatística que aponta em média que cinco por cento da população brasileira apresenta altas habilidades/superdotação. então, vamos pensar no quantitativo de alunos matriculados, por exemplo, na rede estadual de ensino que temos hoje, e deste tirar os cinco por cento que poderão ser identificados com altas habilidades/superdotação. além do atendimento ao aluno o naah/s também tem o papel de formação do professor da sala regular que precisa adquirir conhecimentos sobre as altas habilidades/superdotação. na reunião (jornada pedagógica) de hoje, aqui na escola estadual de ensino fundamental aníbal duarte, em são brás, com os professores, vou apresentar o projeto do naah/s, mostrando como eles podem identificar essa clientela por meio de um formulário de características que usamos. após esse passo agendamos entrevistas com a família e avaliação com os alunos, nossas psicólogas vão analisar o quadro sugerido e, se confirmado, por exemplo, altas habilidades ou superdotação em matemática, o nosso professor de matemática passa a acompanhar esse estudante, no horário de contra turno, e assim por diante', detalha a coordenadora do naah/s.
uma das características da pessoa com altas habilidades/superdotação é o individualismo. 'ele tem o ritmo diferente os demais alunos. então, o professor está na sala de aula com 20 alunos, por exemplo, e esse aluno, geralmente, termina a atividade antes de seus colegas. esse aluno tem a prática de realizar suas atividades de forma individual. a escola pública estadual em belém apresenta um número significativo de alunos com altas habilidades, lembrando que na rede pública trabalhamos com uma classe socialmente e economicamente menos favorecida. ele(aluno), não tem acesso aos bens culturais, vai pouco ao teatro, ao cinema, a leitura se dá mais dentro da escola, e daí, praticamos com essas crianças vários tipos de atividades, como: visitas a museus, praças, exposições, etc., temos inclusive professor de música. nosso tema gerador deste semestre é 'belém em cena', quando levaremos esses estudantes para conhecer os espaços históricos de nossa capital, e no retorno, os professores farão atividades com eles, dentro de cada área específica', diz oliveira.
o aluno com altas habilidades é invisível. 'o aluno com altas habilidades, dentro da educação especial, é o que mais sofre, porque não é rapidamente identificado. as pessoas pouco conhecem sobre as altas habilidades/superdotação. ele pode ser aquele aluno com baixo rendimento, pode ser confundido com um aluno hiperativo ou sem interesse pelos estudos, ele pode ser invisível em relação a sua condição. se nós não tivermos um trabalho muito fortalecido, de formação desse professor do ensino regular, de acompanhamento desse aluno na escola, principalmente na educação básica, apesar da educação especial ser transversal em todos os níveis de ensino, esse aluno pode passar pela educação básica sem ser percebido. nosso foco maior são os alunos matriculados na rede, na educação básica, principalmente na escola pública', esclarece a pedagoga.
alguns estados estão acabando com o naahs. 'com o surgimento das salas multifuncionais, os alunos em alguns estados passaram a ser atendidos nesse ambiente. a equipe do naah/s pará quer o sentido inverso, queremos o fortalecimento do projeto e por isso estamos trabalhando para transformar o núcleo em centro de referência em altas habilidades/superdotação do pará', finaliza silvia oliveira.

- entrevista concedida na escola aníbal duarte, em 30/03/2012.