aviso aos navegantes: emanuel matos com novas propostas para a internet

 emanuel aresti santana gonçalves matos, 61, sociólogo(ufpa), professor universitário, poeta, compositor e escritor, além de graduado e especialista em ciência da religião(florença, itália), reativará o seu blog arcavinteum, ou, talvez, venha com domínio próprio, em abril. as mudanças serão também de conteúdo, com opiniões diversas, sobre o movimento de mundo.

e mais, o sociólogo está aposentado da política e do serviço público(já exerceu funções públicas em governos do estado), sem pretensões de retorno. 'já dei por visto, essa fase na minha vida, porém, não abri mão do ensino, da produção intelectual e da minha relação com a religião', esclarece emanuel matos, que ainda escreve para jornais e revistas com textos especiais e críticos, acima de tudo, com o acréscimo de palestras e conferências em vários lugares dentro e fora do país. e para 2012, lançamentos do sexto livro de poesia e sexto cd - 'acho que a sociedade passa por transformações profundas, como também acho que estamos dando pouca trela pra isso, empurrando com a barriga, e que me dá uma certa decepção, contudo, não abro mão dessa condição de observador do que está aí, do que está em jogo, o que está acontecendo', justifica.

p – o seu blog está congelado desde o início de 2011....

r – parou por várias razões. ele tinha como objetivo colocar uma discussão, que eu chamo de construção de um novo humanismo, tal como foi concebido na idade clássica, e tal como a modernidade arrumou depois, num segundo momento, e que hoje padece de mudanças, ou melhor dizendo, está sofrendo mudanças. o humanismo não é algo que tem a tendência de acabar, mas de se ajustar sempre às novas condições. o homem será sempre este ser que tem a si mesmo como centro da própria natureza. então, não tem como o humanismo deixar de ser uma visão de mundo. quando coloquei o blog, era para começar a discutir esse novo humanismo. mas aí, tive um problema de caráter técnico, porque o meu blog chegou a uma visitação de 140 mil. e foi raptado. passei um tempo para recuperá-lo. enquanto isso, toquei o meu projeto na área musical, meu sexto disco, em parceria com josé maria bezerra e edilberto barreiros – simpatias para limpeza da alma e outras serventias ou nenhuma, onde tiro zarro com a questão da necessidade que a gente tem hoje de pensar e tem preguiça. falta poesia, filosofia, projeto, sonho. o segundo projeto, um pouquinho mais sério, um pouquinho mais duro, é o livro dez cânticos espirituais e outros cânticos de mim. os dez cânticos espirituais são textos referentes aos meus estudos sobre o grande poeta medieval joão da cruz, espanhol, e o cânticos de mim, é uma homenagem ao poeta americano walt whitman. mas, o meu blog será retomado no mês de abril, com outra paginação, outros tipos de textos, curtos e mais informativos, do que está acontecendo na vida cultural e na vida do pensamento filosófico do humanismo.

p – como você observa a comunicação no século xxi?

r – houve um período, ainda recente, que havia da parte de um grupo significativo de pessoas, uma espécie de entortar o nariz para o avanço da mídia e o avanço da internet, as chamadas mídias alternativas. acho que isso está sendo subestimado, ainda, na nossa sociedade. não temos a real dimensão do significado, do que isso representa em termos sociais e políticos, para o mundo. entretanto, uma coisa é certa, isso tudo nos possibilita, nos leva para uma mudança radical, em termos do que que é a vida e o mundo em qualquer parte. pra mim, já é uma coisa que precisa ser colocada para descartar as ideias fanfarronas, preguiçosas, de que isso é uma descaracterização do mundo. não desaparecerá jamais, as relações desiguais no mundo. a internet nunca nos igualará a todos, como também o mercado não nos igualou. as dimensões da realidade vão continuar existindo. os países vão ser diferentes entre si, o império, a necessidade da conquista de um país sobre o outro vão continuar existindo, a disputa econômica vai continuar existindo. se você pegar quais foram os momentos da história recente em que a mídia foi determinante para os movimentos sociais, você conta nos dedos. as mídias servem desde que você tenha conteúdo necessário para atrair as pessoas. o tipo de conteúdo hoje, que pode ser dentro dessa mídia atrativo e chamariz, é que continua sendo aquele de caráter humanista. eu, portanto, não sou nunca e não serei, dentro do que está acontecendo tecnologicamente, alguém pessimista, ao contrário, sou extremamente otimista, no sentido que esse avanço todo nos deixará, não só mais próximos, mas também mais seletivos. é um processo cultural e todo processo cultural é seletivo. isso não teria papel nenhum, nenhuma importância, se a razão disso não tivesse raízes sociais, se não tivesse parte das aspirações do povo. não é o meio em si que resolve. é se o meio desperta expectativas que estão postas na sociedade, ou demandas que estão postas já na sociedade.

p - e a 'onda' de invasão de privacidades?

r – isso é tão velho, quanto o mundo. a única coisa que hoje está tendo, é que está potencializado pelo avanço da tecnologia. os espiões sempre existiram, os olheiros dos reis sempre existiram. faz parte da história da humanidade. não é uma questão de culpa, isso é inerente à existência humana. faz parte da estrutura e da vida das pessoas. faz parte da estrutura da vida da sociedade. sempre tiveram, sempre ocorreram denúncias, dedo duro, informações, espionagens, tudo, sempre....

p – você acha que mundo está se preparando para viver, se for o caso, na ausência dessa tecnologia? nas instituições, quando o 'sistema' está fora do ar, nos mandam retornar no dia seguinte, sem nos apresentar uma saída, uma segunda opção....

r – a tecnologia que está desenvolvida aí, ela já faz parte da sua vida. o não funcionamento delas, é o ônus desse avanço, ou seja, aprender a conviver com essas possibilidades é um risco tanto quanto é uma vantagem você ter à sua disposição. tudo tem verso e reverso. nenhum avanço é totalmente avanço, nenhum retrocesso é totalmente retrocesso. tudo na história da humanidade tem prós e contra. pode haver um bug internacional, por exemplo, com uma quantidade de transtornos, porém, o próprio homem depois encontraria uma forma de solucionar. não há razão para temer. quando as coisas ocorrem na história, ocorrem. não há retrocesso. não tem retorno. mudaram-se os paradigmas, e uma vez mudados os paradigmas, não adianta chorar mais. não se voltará para a caverna. mudou o patamar do avanço tecnológico, não se voltará mais. a cada avanço, corresponde responsabilidades novas.

p - o século xxi é de prestação de contas?

r – não vejo assim. o século xxi é extraordinário do ponto de vista do futuro, do prazer, do tempo do ócio, do escrever. acabaram-se as fronteiras. é tempo do usufruir de tudo aquilo que se plantou. estão diminuindo as hegemonias. ontem, fui para um encontro com 40 pessoas, todos católicos e lhes disse: não é que o catolicismo acabou, vão na comunidade de vocês e perguntem como é que eles vivem. e lhes responderão: a gente aprecia o princípio da família, a gente gosta do respeito.... quem deu isso pra eles? foi o cristianismo e o humanismo cristão. não precisa que o cara esteja na igreja. na verdade, o que vocês estão com saudades é do período em que as igrejas estavam cheias. eu não estou com essa saudade. hoje eu converso com as pessoas que não vão à missa, não vão aos sacramentos e que são cristãs tanto quanto eu, que querem bem aos outros, que não têm preconceitos, que são capazes de amar aos outros.... onde essas pessoas foram formadas? pelo catolicismo, pelo espiritismo, hinduísmo.... então, esse negócio agora que todo mundo venha para a igreja e participe dos ritos.... não será mais assim, as igrejas terão outros papeis, vão ter que servir para outra coisa, como a cultura, música, museus, encontro das comunidades, aulas públicas.... o que eram as basílicas em roma, antes do cristianismo, antes do constantino? eram templos pagãos. quer dizer que o cristianismo acabou? não. nunca vi uma sociedade tão religiosa quanto essa que estou vendo aí. é mentira que a religião não tem mais o seu papel. não tem mais o papel que a gente achava que era da religião. a religião começa a assumir agora o seu verdadeiro papel. olha o sucesso que faz chico xavier, misticismo do harry potter, matrix, avatar.... século xxi.... e pena que vou viver pouco dele....(rsrs).

p – maria sylvia nunes disse-me, em entrevista, que há um tempo nas artes, de retorno, para que possa encontrar o seu caminho....

r – concordo. isso é uma expressão que a ciência adquiriu por volta do século xvi. a vida é feita de idas e vindas, a gente vai e volta, ela não é linear. certo autor dizia: cuidado, a evolução não é necessariamente pra frente, ela pode ser também de retorno, também é evolução. às vezes a gente precisa usufruir, degustar coisas do passado pra ver o quanto do passado está dentro do presente. pra mim é evidente quando observo músicas e poesias contemporâneas, e dizem que não tem poesia boa no mundo, tem sim. e o que é mais interessante, é o exercício de ver o quanto nessas produções estão presentes valores antigos, importantes de toda a humanidade, da história da humanidade. é uma degustação sem culpa, de um acervo cultural que é de todo o mundo. graças à deus estão acabando as ideologizações das artes – arte comunista, arte capitalista, arte engajada, arte de isso e aquilo.... não, é o homem. o que não estamos sabendo enfrentar? não são os sistemas ideológicos que contam para a juventude. são as pessoas, são as relações. isso é um desafio novo pra nós, da minha geração, porque estávamos habituados a trabalhar com a verdade, e eles não. eles estão abertos, o que lhes interessa são as pessoas, as ideias, a beleza, a coisa boa.... ah, mas tem a violência, dizem.... cuidado, porque a violência tinha mais ainda no passado, e em termos relativos, a idade média foi mais violenta que os dias atuais. eu defendo, veementemente, que o melhor tempo é este. não é outro, é o que se vive. não é somente porque é o meu único possível, porque o passado está aqui, porque o futuro está aqui. é bom porque é esse que me cabe, mas sobretudo ele é rico, porque é resultado de tudo que já foi posto, então é impossível ser pior. tudo que veio de bom ficou, não foi embora. há uma coisa que deveria ser proibido: querer viver a perfeição ou a eternidade. precisa ser muito deus pra aguentar.

p – como você vê a comissão da verdade, sobre a época da ditadura? você viveu esses momentos?

r – eu vejo que esse tipo de reivindicação, é impossível não acontecer. mais cedo ou mais tarde, viria. considerando que as correlações de forças não se esgotaram, nós estamos em pequena vantagem, nós, democratas. entretanto, os outros não estão mortos. a tecnologia, a sociedade avançada, o mercado, a informática, não nos transformou em iguais, estamos ainda diante de conflitos extraordinários. eu não posso perder de vista isso. trabalhar com a comissão da verdade, recuperar a memória daquelas pessoas que sofreram em decorrência da intransigência da ditadura, precisa ser feito, é desejável, afloraria mais cedo ou mais tarde, mas precisa saber fazer, porque os conflitos não morreram. eu pessoalmente sofri inspeção, acompanhamento, fichamento indevido, visitas permanentes nas salas de aula no início dos anos 1970.... segundo os caras, nós éramos uma célula do comunismo. uma bobagem que não tinha tamanho.

p – e a presença do papa na américa latina?

r – eu só espero que não queira ser uma espécie de purgação e limpeza de cuba, no sentido de fazer com que cuba tenha que pagar agora pelos eventuais erros, porque teria que fazer também nas ditaduras de direita.... embora tenha condenado o nazismo. mas que não venha apenas para condenar, tem que entender que cuba representa uma grande resistência.

p - e essa 'briga' da dilma, com o parlamento?

r – não há. a maior preocupação da dilma hoje, é a doença do lula. ela veio para quatro anos. e, se tudo sair como eles pensam, lula volta para apaziguar. é a minha análise.

p – como você analisa américa latina?

R – américa latina é um continente, que lamentavelmente tem uma elite reduzida e uma grande massa, ignara. isso foi o grande presente das merdas das ditaduras na américa latina, dos anos 1960 pra cá. nos atrasaram politicamente. nos atrasaram educacionalmente. e portanto, nos retiraram a possibilidade de acompanhar o mundo, no processo civilizatório, de civilidade, de cultura, de avanço econômico, de avanço educacional.... então, hoje nós estamos pagando isso. porém, eu tenho medo ainda, que é a perpetuação das lideranças populistas – a velha tradição caudilhista.

p – para encerrar, como entra a música na sua vida?

r – minha música é intuitiva. escrevo mais do que componho musicalmente. esta paixão vem de guri, desde santarém, onde nasci. venho de uma família de oito filhos, quatro meninas e quatro meninos. tenho duas filhas, ana carolina matos(audiovisual) e ana clara matos(música). as duas envolvidas com artes. eu não consigo largar a música. o novo disco será lançado no segundo semestre, e o livro, brevemente. um 'pedaço' inédito:

[….]
morro a cada dia que passa
mas não perco a vontade de viver.
[….]

[….]
tudo muda nada muda
é a verdade.
[….]

- entrevista concedida no apartamento do escritor, em 23/03/2012.