entrevista: maria christina(fotógrafa)


maria christina, 52, vem da história(curso), e a comunicação atravessa a fotografia. amapaense, de pais marajó(pai) e bragança(mãe), maria christina está, pela segunda vez, exercendo a função de assessora de imprensa, na fundação carlos gomes. para a fotógrafa, a correspondência(carta) funciona como uma máquina do tempo. escreve-se para o futuro.
comunicação
'a comunicação sempre esteve na minha vida. quando pensava no que eu ia trabalhar, quando crescesse, na verdade pensei em muita coisa, menos na área da saúde, mas pensei em tudo, desde engenharia. pela aventura, pela ideia que me apresentava, de construir coisas, de viajar, sempre foram muito fortes, na minha cabeça. eu sempre pensei em ser jornalista, mas nunca pensei em cursar jornalismo. eu nunca acreditei, imagina, isso há 30 anos, que o jornalista se formasse na universidade. é claro que eu não tinha noção da importância do diploma que hoje tem. naquela época não achava nenhum um pouco importante ter um diploma de jornalismo para ser ser jornalista. inclusive continuo acreditando nisso. acho que é uma questão de leitura, vocação, tendência, de desejo, identificação. é basicamente uma vocação, querer ser um comunicador, acreditar que isso é uma ferramenta de mudança, de cidadania. eu sempre vi os jornais, todos, como serviço de utilidade pública. lamento profundamente que os jornais cada vez mais atendam interesses particulares, de grupos pequenos, enfim, porque acho que o jornal, a princípio, pode ter outras funções, ainda comercial, estou falando do jornalismo de uma maneira em geral, não só o jornal impresso. são veículos que fazem com que as pessoas se unam, representa a união, pela informação. lembro-me, quando era criança, que nós ouvíamos muita música. meus pais são músicos, não são músicos profissionais, mas sempre cantaram muito, meu pai tocava violão, na verdade, a música sempre foi muito presente na nossa vida. mas eu lembro, durante um período, no final da minha infância e início da adolescência, havia uma rádio sintonizada pelo vizinho, e ficava ouvindo os recados que as pessoas mandavam para o interior do estado. achava tão bonito a potência daquela ferramenta e pensei um dia, trabalhar com isso. mas nunca passou pela minha cabeça que tivesse que fazer um curso para isso. é claro que as coisas técnicas que eu não sabia, aprendi no exercício da profissão. algumas palavras, alguns termos, que eu acho até tolice, em que as pessoas são ligadas, porque acredito que cada um possa imprimir o seu estilo, a personalidade no seu texto, na maneira de contar a história, enfim. ela pode ser rica, se pudesse colocar um pouquinho de emoção. não estou falando do jornalismo institucional, que precisa se adequar dentro de uma perspectiva, para o que ele serve e foi criado. mas acho que o jornal pode ter sim, pode ter emoção. a coluna social pode ter emoção. não sou uma grande leitora de coluna social, mas algumas me chamam a atenção, porque a gente percebe que elas também são escritas com o coração. mas entrei no jornalismo, o jornalismo não oficial, quando entrei na universidade em 1979, para fazer história, e comecei a fazer notinhas no centro acadêmico, e aqui e ali produzia, e também, foi o início da minha percepção do que era usar a palavra, contar uma história, de uma forma básica, primária mesmo'.

fotografia
'na década de 1990, trabalhei pela primeira vez em um jornal, como fotógrafa. o conhecimento vinha do curso que fiz com o fotógrafo miguel chikaoka, em 1988. apesar de já fotografar, não profissionalmente. a fotografia para mim era um grande mistério, como ainda o é - uma forma de expressão, um monte de coisa que não tenho nem palavras para defini-la. mas eu tinha algumas curiosidades técnicas em relação à fotografia, então fiz o curso com o miguel chikaoka. e foi um ano divisor de águas. recebi várias epifanias, presentes, revelações, não só na fotografia tecnicamente, como conheci pessoas bacanas, foi um período de descobertas. e aí fiquei fotografando durante um período, participando inclusive de exposições, me perguntando se aquele era o meu lugar, porque olhava as minhas fotos e me dizia não sei se é aqui que quero estar, não sei se é numa galeria, num museu.... mas participava, eu gostava daquela movimentação, das coisas que a gente discutia, o fato de ter troca entre as pessoas, e que sinto falta. as pessoas se conhecem e quando se aprofunda a relação, que ficam amigos, porque conhecidos temos muitos, existe uma coisa que eu gosto que é a troca, seja de informação, participar de coisas juntos, pensa em projetos, viajar juntos, vai ao cinema, enfim, é uma coisa de vida, a minha vida que se mistura com a tua, e isso acho maravilhoso. então no início da década de 1990, o jornal folha do norte, foi revivido pelo grupo o liberal. o editor-chefe, walmir botelho, me convidou para trabalhar com ele, em 90, 91, 92. foi uma escola. e tive muita sorte. um detalhe, acredito em sorte. sou filha de um jogador e o sangue dele está nas minhas veias. conheci pessoas incríveis como o valmir santos, fotógrafo laboratorista, foi um pai para mim na redação, que me abriu os olhos para as coisas técnicas, chamava a atenção e me dizia como fazer isso e aquilo, me ensinou a ler a película, a achar o melhor tempo, porque eu pegava a máquina ia fazer as minhas pautas. o seu oswaldo também, aliás, os laboratoristas amava de paixão, porque me davam retorno, e até chegar na imagem, tinha esse intervalo. mas foi na fotografia que descobri a minha tendência para fotografar o esporte, no caso, o futebol. adorava! quando a minha pauta era o esporte, pensa numa pessoa feliz. era o exercício de intuição, da rapidez, muita atenção, tive o prazer de fotografar ao lado do pedro pinto. quando eu voltava com o repórter do campo, o editor tinha aberto a página, o diagramador tinha colocado lá todos os espaços para as fotografias e não tinha nada escrito. então, o editor dizia assim: senta e faz um texto. e fazia. procurava o entorno daquele evento. comecei a fazer pequenos textos.

palavra 
'a jornalista clara costa era responsável pela coluna chamada ensaio, divulgada aos domingos. nessa coluna, ela falava do trabalho de um fotógrafo. e recebi o convite para escrever sobre o assunto. peguei trabalhos de alguns fotógrafos conhecidos, conversava com eles, conhecia a trajetória, eram fotojornalistas, documentaristas, artistas, e fui escrevendo pequenos artigos sobre fotografia. uma ótima experiência. tinha retorno. as pessoas liam, falavam, criticavam. não tinha grande literatura ali, mas valeu. e, nesse período, fui convidada pelo jornal o liberal para escrever algumas matérias, por exemplo, sobre o walter bandeira, o lambe-lambe(fotógrafos de rua) que ainda existia, foram poucas vezes, porque a minha área era a fotografia. e os anos que passei no jornal me deram amigos que tenho até hoje. em 1992 saio do jornal. continuo na fotografia, na documentação, principalmente na área da reprodução. sempre experimentando e descobrindo que a fotografia era sim uma linguagem para me expressar, porque eu tenho um amor muito particular pelas palavras. e a fotografia não é destituída de palavras, só que não é a palavra formalmente constituída como conhecemos. mas é uma linguagem. é uma maneira que eu tenho também para dizer o que eu penso, o que eu acho, o que gosto, o que não gosto.... quando comecei a trabalhar com mais afinco em produção, por conta de nossos eventos fotográficos, época em que não havia produtor cultural nessa área, me abriu outra porta, o jornalismo cultural. participei como debatedora no sem censura pará. sinto prazer em ler tudo sobre arte, de uma maneira em geral, principalmente sobre arte contemporânea. e vem a assessoria de imprensa, na área cultural. já existe uma literatura de jornalismo cultural. é o que quero fazer. sinto-me confortável. e provocada. na fundação carlos gomes é sempre um desafio. trabalho com músicos, com música, numa instituição considerada uma das maiores e melhores do país e reconhecida internacionalmente, com a educação também, que eu acho que é a grande revolução que falta acontecer na nossa vida como brasileiro. e eu tiro a palavra carinho e coloco o olhar com seriedade e compromisso. sou muito feliz aqui, porque eu participo de um projeto em que acredito, de inclusão social. são incontáveis os exemplos de sucessos internacionais, dos alunos da casa'.

p - falando em internacionais, há descobertas também, no exterior?
r – vivi um tempo em paris. fiquei na residência de uma artista uruguaya, numa avenida que tem o significado revolucionário. viajar pelo velho mundo é uma experiência única, conhecer as origens, na verdade. a europa exerce um fascínio porque a gente entende muita coisa. nos museus, em dois momentos eu fiquei muito impressionada, não sei se é esta a palavra, emocionada, impressionada, comovida, quando me vi diante do davi, em florença, não consegui tirar os olhos dele e parar de chorar. em veneza, acho que todo mundo deveria conhecer, amando. e de preferência, com o objeto amado ao lado, porque é um lugar para viver o amor, a paixão, enfim, o que for, algo muito forte. e de lá, florença. e eu não estava preparada. andando num corredor de um dos museus, foi quando me dei conta de que estava na europa, ao me deparar com davi. ali estava toda a europa para mim. toda a história, além das técnicas. de volta ao país, todo ano viajava para rever tudo. em madrid, vivi o mesmo, diante da guernica.
p – as cartas, não vêm da audição na infância?
R – a família do meu pai, ainda hoje mora no rio de janeiro. aqui, morava ele e o irmão, ambos falecidos. eu tinha quatro anos, quando escrevi a minha carta, para a minha avó. a carta sempre foi para mim, um dos veículos mais próximos, para me comunicar com as pessoas que estavam fora, que não estavam na mesma cidade. nasci na serra do navio, vim pra cá com oito anos, então, eu só tinha notícia de alguns parentes porque a minha mãe recebia cartas, cartões.... esse transporte, feito por pessoas, me encantava. sempre escrevi cartas. fui descobrindo, de 20 anos pra cá, que a carta tinha outro componente - ela brincava com o tempo. comecei a usar a carta, não só como comunicação, porque ela vai viajar no tempo. ela vai para o futuro. levará uma mensagem do passado. no seu destino, irá transitar no mesmo espaço que eu transitei, dias atrás. troquei muitas cartas com a escritora maria lúcia medeiros, que me disse, depois, que eram como segredos. e produzi o projeto segredos em azul, que era escrever cartas(segredos) e fazer fotografias(azul). por conta disso, fiquei dois meses no canadá, escrevendo cartas. em cada carta, ia um pedaço de mim e um pedaço da cidade. foram 40 cartas. só do projeto, mas escrevi muito mais. o movimento de enviar, depende de mim e que me deixa feliz.

p – projetos?
r – dois trabalhos. do projeto segredo em azul, produzir um caderno de artista. selecionei algumas imagens, alguns pedacinhos de textos, sem identificar para quem foi, e o afonso galindo, que é também artista gráfico, está finalizando o projeto gráfico. e ou outro projeto que estou fazendo, é o livro das palavras. mandei convite para várias pessoas amigas, pedindo uma palavra de presente. é uma coleção.
p - algumas palavras? (rsrs)
r – nunca assumi o compromisso de ter o melhor texto, a melhor fotografia.... tenho o compromisso de viver cada dia bem, em paz, tentar ser uma boa pessoa. uma palavra que eu gosto e que fala de mim, não só nas minhas relações, é compromisso. faz a diferença.

maria christina vibra com as três filhas e duas netas. vem de uma família com três meninas e um rapaz. sensibilidade que sobra, transborda!


- entrevista concedida na fundação carlos gomes, em 01/02/2012.