'não sou escritora': maria sylvia nunes



não, não é o teatro, mas a pessoa. fui conversar com maria sylvia nunes nesta tarde de sábado chuvoso. a procurei por conta de duas citações nas entrevistas do morenocris.org, em 2011: [por cá] e [por cá].'o que eu fazia na televisão marajoara, era adaptar romances já existentes, para a tv – traduzidos, diga-se', explica. imagine um casal avesso a entrevistas, aparições públicas. 

assim era o bené(27 de fevereiro completará um ano que nos deixou), como continua sendo maria sylvia nunes, 82, advogada, tradutora, teatróloga e professora aposentada pela universidade federal do pará, além de estar viúva do advogado, filósofo e escritor paraense, benedito nunes. agora, imagine uma casa com cinco bibliotecas, uma de sylvia e as quatro, para abarcar inúmeras obras de filosofia, só do benedito, aliás, os mesmos serão doados para a arquidiocese de belém - centro de cultura e formação cristã, onde o filósofo proferia palestras. sylvia é nome de teatro e o de sua amiga, idem.


depois da direção do espetáculo 'carmina burana', encenada no theatro da paz, em novembro do ano passado, sylvia volta-se para o seu mundo interior e relembra algumas passagens de sua relação com o filósofo. 'era muito fácil conviver com ele, não era difícil, não. ele era uma pessoa de ideias muito abertas, cabeça muito boa e de muito ofício, desde que ele tivesse os livros dele, a liberdade dele para ler e escrever, estava tudo bom pra ele. nós tivemos uma convivência muito boa porque nós gostávamos das mesmas coisas. formados em direito, fui para a linha do teatro e ele, para a filosofia. nós somos o que nós gostamos de fazer, absolutamente autodidatas. o bené, ainda foi durante muitos anos, auditor do tribunal de contas, quer dizer, ele ainda usou o que tinha aprendido na faculdade. mas eu não, me meti logo com o teatro'. você ainda faz adaptações? 'não, as tv's não fazem mais aquele tipo de programação. o que eu faço, às vezes, é dar palestras, cursos sobre teatro'. de onde vem a paixão pelo teatro? 'desde pequena. as minhas irmãs brincavam muito de teatro(sylvia é a caçula de quatro filhas, de pais do marajó(pai) e mãe, paraense e portuguesa), e eu ficava limpando, varrendo o palco. nunca fui atriz. sempre gostei de trabalhar do lado de dentro do teatro, como a direção, por exemplo'. você faz trabalhos de tradução também. quantas línguas você domina? 'dominar, dominar, ninguém domina... nem a nossa. mas falo e leio francês, o espanhol, naturalmente todo mundo fala o portunhol, leio bem italiano e inglês, alemão leio menos bem. fiz a tradução de somente três peças, uma delas foi édipo rei, de sófocles, mas não traduzi do grego, e sim da versão francesa'. como você sobrevive com a ausência do escritor? 'a gente tem que achar um jeito. é isso que eu tento, achar um jeito. e também tenho tão boas lembranças da nossa convivência, e isso é mais fácil. é alguma coisa interior, mais espiritual, e que tem a ver com memória também'. o projeto do teatro na universidade, é seu? 'barradas(teatrólogo paraense), benedito nunes e eu fizemos o pedido ao reitor(josé da silveira neto), que convocou o bené para dirigir o serviço do teatro da universidade, de onde saiu a escola'. filosofia e teatro sem distância.... 'nós podemos escrever um tratado sobre isso, de como a tragédia está próxima da filosofia grega. prosa, poesia, teatro, filosofia.... há um elo'. como você analisa o teatro atual? 'a gente tem sempre a tendência de dizer na minha época, mas eu não acho. penso que agora o teatro, aqui em belém, é mais ativo, mais participante, e porque também tem mais meios, tem mais grupos. no meu tempo era quase o bloco do nós sozinhos'. você não é adepta das redes sociais, do computador.... 'não, não, tenho horror a isso'. algum projeto? 'na minha idade, é melhor não ter projeto, o que vier, o que me agradar eu faço. no ano passado fiz a carmina burana, então, quando uma coisa me agrada eu faço'. nenhum livro.... autobiográfico? 'de jeito nenhum. tenho horror de mostrar minha intimidade'. e se o bené nos visse agora, você dando entrevista? 'ah, ele olhava da porta e ia embora correndo(rsrs)'. mas você já visitou várias partes do mundo.... 'conheço um pouco da europa e estados unidos, um pouquinho do oriente médio. o mais estranho que conheço, é a ilha das bermudas'. e o século xxi.... estamos de retorno à caverna, principalmente nas artes? 'essas voltas ao passado são inerentes à arte. toda arte se volta para o passado, por exemplo, picasso, se voltou para as artes negras, primitivas. parece que está esgotado, e as vanguardas fazem o retorno ao passado. não estou analisando. falo apenas o que sinto. sempre, durante a história das artes, tem o momento que a arte aceita como arte, entre aspas - oficial, e depois tem uma outra arte que vem por baixo dessa e que vai mostrando a cara, que é a vanguarda, e chega o momento, em que essa vanguarda, também, está adotando certos baneirismo, aí, geralmente a tendência é caminhar para trás. eu acho assim'. quer falar de outra coisa? 'não, já falei demais para o meu padrão'. peço-lhe para conhecer a sua biblioteca, que é também sua sala de vídeo. ok. posso fazer imagens? ok. seus chamegos são dois gatinhos(lindos). que casa!
- entrevista concedida na residência de maria sylvia nunes, em 21/01/2012.