arquitetura política: deputado edmilson rodrigues

estou produzindo uma série especial para a página, e uma das fontes está localizada no bairro da cidade velha, precisamente na rua onde nasci e vivi minha infância, bem no miolo dessa estrutura histórica, de nossa capital. não visitava o bairro há longo tempo(não entrava no complexo), e, na esquina de um dos cruzamentos, refletindo sobre as várias placas nos imóveis de 'vende-se' e conferindo as mudanças daquilo que me habita a memória, deparo-me, com um arquiteto. estava um sábado escaldante, quando avisto essa fonte de palavras, no boteco do gilberto(morador eterno), sentado, olhando o tempo, depois de ler os jornais do dia - edmilson rodrigues, novo morador do bairro. conversei com o arquiteto edmilson rodrigues, mas, há política.... de cidades.
e com ele, inauguro mais uma série na página - política habitacional. 

ex-prefeito de belém(40º) e atual deputado estadual pelo psol, edmilson rodrigues, 54, arquiteto pela universidade federal do pará, com especialização pelo naea(núcleo de altos estudos amazônicos) em desenvolvimento de áreas amazônicas, mestrado em planejamento do desenvolvimento urbano(também pelo naea), e que gerou a obra aventura urbana, e doutorado em planejamento territorial, ciências – geografia, pela universidade de são paulo(usp), fala sobre o bairro da cidade velha(arquitetura/patrimônio).

p – a cidade velha está com várias residências para venda, e alguns imóveis estão desabando....

r – belém é muito rica, em termo de patrimônio arquitetônico, de valor histórico. há um reconhecimento do iphan(instituto do patrimônio histórico e artístico nacional), de que realmente é um dos maiores acervos conjuntos. grandes monumentos deixados ainda do período do barroco jesuítico, como a igreja de santo alexandre, obras do landi, e uma série de outras obras importantes no centro histórico, especialmente na cidade velha. o importante é que nós temos aqui um conjunto de milhares e milhares de casas, de residências de pequeno porte, casarões com bastante envergadura, de engenharia, e com uma significativa beleza, portanto, em termos estéticos, de grande valor também. de modo que há conjunto valioso. qual é o problema? são casas muito antigas. e muitas das famílias, que foram famílias portuguesas, comerciantes, foram empobrecendo. hoje, há muitas viúvas, e às vezes, os filhos e os netos, se constituíram como empresários, professores, casaram, viajaram, ou, passaram a morar em outras áreas da cidade, e os remanescentes, mais idosos, não têm tido condições de investir para manter, o que é difícil manter, exatamente porque são construções feitas com técnicas não modernas, e muitas vezes a utilização da madeira com o barro, a madeira com a areia e o cimento, a taipa, o tabique, a madeira pura mesmo, utilizada nas estruturas ou mesmo no piso, na infraestrutura, realmente não é simples. nós temos mais de dois mil tipos de cupins e há cupim que vem da terra e que destrói a infraestrutura de madeira. são pilares de madeira, e é muito difícil. a sorte, é que essa técnica construtiva utilizada aqui, apesar não ser usado o concreto ainda, que aquele período não estava bem desenvolvido, usa madeira de altíssima resistência, como o acapu, a sucupira, a massaranduba, macacauba, que não são madeiras acessíveis a certas espécies de cupins, no entanto, ainda assim, estão em alguma medida fragilizadas pelos séculos e pela dificuldade de manutenção. por conta disso, muitos começam a vender as suas casas. mesmo porque, há uma grande contradição, os órgãos do patrimônio reconhecem o valor histórico, mas como o governo federal e os governos estadual e municipal não investem e não oferecem incentivo de crédito para as famílias, ou mesmo incentivo financeiro às famílias, para que possam reduzir os problemas estruturais, reformar, fazer a manutenção da casa, então fica apenas para aquela família já pauperizada, em alguns casos, a responsabilidade de manter o seu imóvel. ela nem pode reformar, modificar, porque está tombado pelo patrimônio e não recebe incentivo. só que há uma diferença, e eu falo como arquiteto, se você tem uma casa construída há 20 anos atrás, numa alvenaria, em concreto, você tem condições de manter muito mais facilmente. restaurar uma casa, de valor histórico, com um século, dois séculos de existência, é muito difícil. há de ter muito domínio técnico e nisso são poucos. é uma mão de obra especializada, muito cara, e torna-se dispendioso restaurar uma casa. você vai gastar numa casa nova 10 mil, e certamente numa casa antiga, uns 50 mil. ou muito mais. de modo que esses são os problemas estruturais e acredito que deve haver um planejamento, uma catalogação dos imoveis mais valiosos e um investimento. o governo tem que entender que é recurso público para manter a memória da nossa cidade, a memória do grão-pará, porque belém é a capital da amazônia. desde o período colonial, belém foi a capital do grão-pará e maranhão, sob o comando de mendonça furtado. portanto, não é dinheiro sendo jogado fora, é dinheiro investido na memória, no patrimônio, para viabilizar, inclusive, não só a dignidade para quem mora aqui, mas para todos os moradores da cidade e do estado, e viabilizar uma dinamização econômica, porque o turismo quer ver aquilo que é específico, característico de cada cidade. e nós somos diferentes de qualquer outra cidade do mundo. e uma das nossas diferenças, é ao mesmo tempo, termos 39 ilhas grandes, com muita floresta, portanto, somos uma metrópole, mas uma metrópole incrustada na floresta, talvez a única metrópole brasileira(nem manaus), que tem mais de dois terços da sua área territorial, constituída por ilhas, e florestadas, bem florestadas. de modo que esse um terço ocupado, porque a maioria da população, essa área continental de belém, no entanto, tem ainda muita florestal, bosques, e reservas importantes, os mananciais do bolonha e água preta, por exemplo, e a floresta com mais de quatro mil metros quadrados, e tudo isso, soma para valorizar o turismo em belém. agrega-se algo fundamental, que é a riqueza do patrimônio arquitetônico. aqui há monumentos de grande valor, tombados pelo iphan, e ao mesmo tempo, um conjunto monumental com mais de três mil imóveis no centro histórico de belém.

p – e o projeto monumenta, do governo federal?

r - o monumenta foi criado pelo banco interamericano de desenvolvimento(bid), depois do terremoto que ocorreu na década de 1980, no ecuador. destruiu grande parte do centro histórico de quito. foi a primeira vez que o bid decidiu liberar recursos para municípios. de modo que o monumenta é um dos poucos programas do bid, em que o município recebe recursos, repassados ao governo federal, através do ministério da cultura, e os municípios se credenciam e não o governo do estado. belém foi incluída no monumenta. não ficou entre as primeiras sete cidades. ficou de fora. depois, ela foi incluída, como uma das cidades que deveria ser agregada. mais 20 cidades foram selecionadas. infelizmente, uma autoridade ainda no governo do almir gabriel, decidiu retirar belém do monumenta. preferiu perder recursos. por que? porque alegava que, ou o governo do estado tinha o controle dos recursos e das obras, ou não havia porquê ter o convênio. belém foi posta de fora. quando eu era prefeito ainda, na assunção do lula, no comício que ele fez aqui, no ver-o-peso, em frente a praça do relógio, eu pedi para ele que incluísse novamente belém. lula ordenou ao gilberto gil e o gilberto gil decidiu que belém seria reincluída no programa monumenta. belém tinha sido tirada pelo francisco welfort, que foi dirigente do pt, atucanou e cometeu um crime de lesa-patrimônio de belém, com o aval, consorciado com pessoas que dizem amar belém. deve-se ao gilberto gil, a reinclusão de belém no projeto monumenta, e aí, foram liberados recursos. nós podemos fazer as reformas da praça da sé, da praça em frente a igreja de santana, a própria igreja de santana recebeu o primeiro investimento para que evitasse que ela ruísse. desses recursos, foram liberados mais quatro milhões e meio, para fazer a reforma do mercado bolonha, que só agora, depois de 10 anos, foi concluída. mas porque belém faz parte do monumenta.

p – como novo morador do bairro, está pensando em projetos?

r – a cidade velha tem que receber um tratamento mais carinhoso. é como uma pessoa muito bonita, mas que está maltratada. quando houver um investimento e apoio às famílias, conforme o bid inclusive previa, mas criaram uma burocracia tão grande, que as famílias que querem o financiamento, não conseguem tirar, e muitos desistiram. a associação dos moradores da cidade velha, faz a maior crítica ao bid, porque criaram mecanismos burocráticos que inviabilizam. se quisermos reformar este prédio aqui, faz-se um orçamento. por exemplo, será preciso 10 mil reais. o bid diz, você tem direito a esse dinheiro, a juros baixos, só que exigem tanta documentação, tantos compromissos, que o cara desiste. teria que gastar mais, para garantir os 10 mil. deve haver um programa, voltado a esse apoio, com arquitetos especializados em patrimônio histórico e restauração, quero dizer, você não entra com dinheiro, simplesmente, mas com parecer profissional, fica melhor assim e assim, isso a lei permite, ou a lei não permite, dá uma solução arquitetônica, ajuda a fazer o cálculo orçamentário, e a partir daí, existe a possibilidade de liberar o recurso, mais facilmente. esse deve ser um programa. se for aperfeiçoado, o recurso do bid, que vem através do projeto monumenta, pode ser positivo. mas do jeito que está, o brasil fica pagando juros sobre ele, e os imóveis se deteriorando, e as cidades históricas degradando. o potencial turístico fica colocado no segundo, ou no terceiro plano, quando, poderia ser dinamizado mais fortemente, agora mesmo com a copa, se torna ainda mais urgente, mas o governo não tem olhos, não consegue pensar o futuro, porque não tem amor ao passado e ao presente.

p – e como você vê o presente?

r – belém está abandonada. todas as cidades históricas do mundo, quando os governos prezam, têm carinho, eles procuram preservar. com programas de restauro dos imóveis, mas também com o cuidado, com as vias públicas. o que houve? houve um descontrole do transporte, o sistema de transporte coletivo foi deteriorado, as vans e kombis, que cumprem papel importante para a população humilde, mas elas estão dominando a cidade sem nenhum tipo de controle, regulação, de modo que um bairro como o da cidade velha, você pode contar de um a cem, dezenas de kombis passando, ônibus passando, ruas estreitas que não poderiam receber cargas pesadas, e recebem todo o dia, o dia todo, não há nem sequer horário, o risco de se perder esse bairro histórico, é muito grande, por conta da trepidação e do uso pesado do transporte coletivo. citei isso porque um sistema de transporte alternativo no centro histórico, impediria que ônibus entrassem. os bondes e outras formas alternativas poderiam cumprir esse papel. agora, a cidade toda, não é só centro histórico, não é só o primeiro bairro de belém, que está abandonado. se você for aqui na tamandaré ou na doca, dois canais importantes de belém, que ficam em bairros mais centrais da cidade, você vai ver os canais assoreados e na primeira chuva, alagando até ônibus. ao mesmo tempo, se você for na periferia, lá no canal de santa isabel, icoaraci, ou no tucunduba, que uma obra importante, inaugurada por mim, na primeira etapa, ainda em 2003, então você vai perceber o abandono de quem mora no centro ou na periferia, vive o alagamento. e com o descontrole com o lixo urbano. acabaram com a coleta seletiva, iniciada com mais de oito mil contêneires, em três primeiros bairros e mais quatro que depois foram agregados, ao invés de ampliar para toda a cidade a coletiva seletiva e transformar belém numa referência mundial, simplesmente, abandonaram a ideia. o centro ainda vê a coleta diária, mesmo assim, a coleta domiciliar. aquele morador que quer se desfazer de um colchão, de um móvel velho, ele joga na rua. tanto no centro, como na periferia, muito entulho. os bairros da periferia, sequer a coleta do lixo domiciliar. as pessoas mais pobres convivem com o alagamento e com o lixo, com ratos e doenças. infelizmente, esse é o quadro da cidade. se você somar isso, ao abandono da qualidade da educação e da saúde, tendo em vista que várias unidades saúde que funcionavam 24 horas, tiveram reduzido seu horário de funcionamento, as ambulâncias desapareceram, não há realmente nenhuma condição do povo sorrir, festejar, a situação que está submetida a nossa cidade. é de muita tristeza. vamos completar 396 anos(12/01), sem motivo de festa. talvez muita propaganda paga com dinheiro público, na televisão, no rádio, com a cara das autoridades, mas infelizmente o abandono é tão concreto, que a população está numa situação de insuportabilidade. aonde se vai, são reclamações, reclamações. até a autoestima do nosso povo está rebaixada.
- entrevista concedida no bairro da cidade velha, em 07/01/2012.