entrevista: indaiá freire, jornalista e realizadora de audiovisual



'minha mãe era do município de vigia, meu pai do marajó, de cachoeira do arari. a gente não é muito diferente de nossos pais. minha mãe e meu pai foram do movimento estudantil. minha mãe foi da ação popular. 
tenho um tio que foi preso político. o outro tio morreu torturado - fuzilado, na verdade, na época da ditadura, em 1971. o meu pensamento tem a ver com toda essa base familiar, dentro de casa'. freire é paraense e a primeira, dos três filhos do casal.

com 1,82 de altura, indaiá freire da silva, 42, desde o primeiro ano do curso de jornalismo na universidade federal do pará, em 1990, encontra na tv cultura, através de estágio e no comando do jornalista afonso klautau, o seu espaço produtivo. atualmente, indaiá e afonso trabalham juntos na rede cultura de comunicação como assessores especiais na gestão da presidenta adelaide oliveira, também jornalista. o mestrado está na área do cinema e o doutorado planejado.

o interessante de sua vida profissional, é que freire cursou o ensino médio na escola técnica e queria ser engenheira eletrônica. depois de duas tentativas negativas em telecomunicações, uma no rio de janeiro, e a outra, por cá, resolve, na terceira, fazer a opção por comunicação. 'sempre fui ligada à arte. meu pai e minha mãe liam muito, assistiam muitas películas, peças de teatro, shows. eu tenho uma formação artística muito forte por influência deles. eram amigos de artistas plásticos, jornalistas, músicos, escritores. eu respirava arte. a minha veia foi aparecendo e quando criança(9 anos), fiz parte do saltimbancos(vai citando personagens e atores, como ione matos, rafael lima, joão carlos pereira, ana arruda, paulo pinto(irmão de lúcio flávio pinto), zélia amador... e a outra peça, édipo, o rei(8 anos), montagem do grupo experiência(ainda tenho esse catálogo). a minha entrada na tv foi me conduzindo para o mundo do audiovisual. sou jornalista por formação, mas eu sou mais artista, que jornalista. eu gosto mais de cinema, que de jornalismo. eu gosto mais de uma estética ficcional, mais animação, que necessariamente a vida real do jornalismo, a reportagem jornalística. eu gosto da imagem de outra maneira, onde sinto prazer'. indaiá freire é premiada nesse campo.

p – você sempre esteve na área do audiovisual?

r - 'eu gosto muito do audiovisual', reforça freire, 'trabalhei com cinema, fiz alguns curtas(6), como continuísta, fotografia, produção, e um deles – origem dos nomes, sobre a lenda dos índios kaiapó-xicrin, selecionado para o festival da mostra de cinema internacional, em são paulo. trabalhei ainda na associação brasileira de documentaristas e curtametragistas do pará(abd e c), na diretoria. a gente está o tempo todo pensando na questão da produção independente e atenado para as novas diretrizes de apoio e patrocínio, além da luta de política de audiovisual mesmo, tentando conseguir que mais e mais gente trabalhe com audiovisual, que tenha subsídio e forma de se sustentar. a grande discussão no brasil é trabalhar com arte, mas se sustentar também - que sugere renda, que sugere sustento, que isso tenha uma movimentação econômica e que as pessoas possam sim, trabalhar com isso e viver disso. não seja apenas um hobby.

p – a televisão é uma porta para o cinema?

r – acho que sim. a tv é uma possibilidade muito grande, porque trabalha com vários elementos. a televisão é uma cadeia importante porque ela tem a parte de produção, realização, distribuição, emissão. ela preenche essa cadeia produtiva. você pensa, você realiza, você produz e você emite, ou seja, você tem um canal de distribuição para o seu trabalho que é um grande gargalo no mercado audiovisual. o brasil produz mais de 150 películas(longas) por ano. onde exibir? nos circuitos comerciais dificilmente entra a película brasileira. e quando entra, são pouquíssimos os cineastas, no reduzido número de distribuidoras. no geral, quando não caem nos alternativos, estão nos festivais.

p – já participou de películas estrangeiras?

R – não. mas fiz, em 2007, na escola de cinema em cuba, um curso de produção executiva. vi tanta gente de cinema que nunca pensei que fosse ver pessoalmente, como Hanna Schygulla, atriz alemã, musa do fassbinder, que foi apresentar a película do outro lado(coisa de fã). infelizmente perdi a palestra de gabriel garcía marquez.

P – houve um tempo em que o cinema era visto como a 'a arte pela arte', quer dizer, o porquê do vermelho nas películas de bergman, do enquadramento de fellini... ou seja, fazíamos também, o papel de crítico. ultimamente se fala muito em cinema temático, por exemplo, nos direitos humanos, históricos... cinema para mim é quando não consigo fazer a diferença entre a vida e a arte. quando assisti a película 'império do sol', de steven spielberg, fui a mãe que poderia perder o filho; quando vi a história do cachorro 'hachiko', senti a perda de meu cachorrinho antecipada; em 'cisne negro', a mãe que nunca deve servir como exemplo; no 'reencontrando a felicidade', caso perdesse um filho, e por aí vai... contudo, consigo perceber todo o quadro, desde o roteiro, fotografia, etc., nas películas históricas, como os que tratam sobre o nazismo, guerras, diálogos inteligentes e implícitos(aí sim, estou no cinema). ao sair da sala de cinema mexida nos sentimentos, penso, as vezes, que o cinema não é um erro, mas um sintoma, um alerta de que algo não vai bem e que preciso trabalhar minhas emoções e ter cada vez mais a certeza de que tudo não é eterno e que poderia estar ali, dentro daquela película. quando não consigo ver a arte, mas a vida, mesmo que ainda seja uma metalinguagem, como a película 'poesia', de Lee Chang-dong. percebo que estamos colocando o selo temático no cinema. por que esse caminho?

r – eu acho que cada cineasta tem a sua estética, não só a estética do ponto de vista da forma, mas o conteúdo mesmo. as pessoas observam o seu cotidiano e o recontam de alguma maneira, a partir de suas diferenças, das suas relações afetivas, de seu conhecimento. isso não é novo. o que há é um imbricamento entre a questão ficcional, documental. o que você tem é uma câmera, sem muita luz no estúdio, uma perspectiva menos ficcional em alguns autores, cineastas, do que em outros. você tem uma película pipoca com guaraná, mas tem aquela que fala para refletir. a que faz abordagem de movimento histórico e também a que fala sobre relações humanas. eu penso que há uma gama de tudo. não há mais aquela escola fixa que existiu ao longo de mais de 100 anos. não há mais aquela visão glamourosa de hollywood, da década de 1950. dos musicais, muito colorido. não é que esteja agora assim, do meu ponto de vista. é um processo que vem de muito tempo. hoje, se tem cinema para todo tipo de gosto, de público, de idade, de a a z, e continua tendo, a película de pipoca com guaraná. mas, você tem a película que vai falar de relações humanas, mais sério, mais introspectivo. e a película que vai falar do cotidiano, entre outras. se eu tenho uma película que é quase um documental, vou usar fotografia em que eu não vou ter muita interferência de luz, usarei mais a luz natural, a luz que falo é a luz cênica, agora, se vou fazer uma película pipoca com guaraná, essas que hollywood produz muito, aí sim, vou ter muito colorido, uma cor muito vibrante, outra luz cênica, porque eu vou contar uma outra história. eu tenho outro público, outro foco. cada um conta a realidade de acordo com a sua ótica. as minhas influências culturais são fundamentais. é evidente que a produção oriental é completamente diferente da produção ocidental, porque a visão de mundo é diferente. e eu vou mostrar isso pela lente. agora, em muitos momentos, elas se confundem porque, por exemplo, cineastas orientais estão em hollywood. um país imperialista, como o norteamericano, tem uma forma de se relacionar com o resto do mundo e um país que vive sobre a opressão, tem outra forma. se você pegar películas iranianas, um exemplo, elas mostram em documentários, guerras, efeito pós-guerra, porque essa é a realidade, eles convivem com isso. atualmente, não há uma forma de se fazer película. você pode fazer sobre o que você quiser. não há uma uma moda, vamos dizer assim. e onde há uma liberdade maior de expressão, de pensamento, de criação, eu faço o que eu quiser. embora os estados unidos seja a grande indústria, que domine o cenário cinematográfico, eu tenho outros olhares transitando por outros festivais e que hollywood começa a absorver, como festival de veneza que premia, cannes premia, berlin premia, sundance premia... eu vou ter essa convivência e isso é muito legal. é isso que eu percebo. eu não percebo uma moda, uma tendência. essa mostra de direitos humanos, já acontece há muito tempo. as mudanças sociais vão sendo projetadas nas telas de cinema. eu percebo que não sou tão dominado. eu posso respirar sobre esse domínio. no momento em que o brasil começa a fazer acordos com os países asiáticos, ele vai saindo desse jugo. tudo isso eu tenho representado nas artes como um todo. e o cinema(pra mim é a arte maior) que congrega todas as artes, vai ser um expoente maior de toda essa mudança social, cultural e de pensamento. a mudança social vem através da mudança interna da gente. quem muda sou eu. quem vê a mudança sou eu. quando vejo direitos humanos no cinema, é porque eu posso ver o que o cinema sempre fez. daqui um tempo, os árabes vão observar mudança na música, pintura, arte cênica, cinema, escultura... não é só uma questão de liberdade, mas de alteração de pensamento. quando rossellini coloca uma câmera e filma roma, cidade aberta, durante a segunda guerra mundial, ele vai rompendo com aquele cinema glamour que hollywood fazia pra amenizar a dor da família que perdia o filho, e ele(rossellini), mostra a guerra nua e crua. uma mudança radical.

p – a cultura é fundamental...

r – só se inclui os excluídos, através da educação e da cultura. a cultura é um meio de inclusão. ela te ensina a valorizar inclusive as tuas tradições populares, que você as vezes não valoriza, não tem ideia do que representa aquilo. a identidade da sociedade da qual você está inserido que tem tradições populares e que você simplesmente ignora. mas através desse processo, você pode tentar viver nesse meio. sobreviver disso. pra isso você precisa saber gerir e como gestar. o ministério da cultura vem pensando nisso e instituiu uma nova secretaria que se chama secretaria de economia criativa. no momento em que seguro aquele ribeirinho para não ir para a cidade para morrer na periferia, eu estou ajudando as relações sociais econômicas. no momento em que o ajudo a pensar, a se gerir, estou ajudando a incluí-lo socialmente, porque não há lugar para todo o mundo, e na cidade, só há vaga para os qualificados.

- entrevista concedida na biblioteca da cultura, em 21/10/2011
- imagem no arquivo de fitas da cultura(smartphone)