[Consequências]: Conto de Rhobson Christopher






I

- Moço, me dá umas moedas?
Fábio fingiu não ouvir. Mão no volante, disse qualquer coisa para o colega do escritório sentado no banco ao lado, igualmente surdo. Azar do menino: se o carona fosse uma colega, Fábio seria mais generoso. Como não precisava impressionar o marmanjo, ignorou o pedinte e engatou a ré para deixar o barzinho. Quase oito da noite no Rolex, expediente amanhã cedo: era preciso ir embora. Já beberam, urinaram, piscaram para as gatas da mesa ao lado, “cantaram” a garçonete e até anotaram o telefone da gostosa que “deu mole”. Missão cumprida; era hora de voltar para as famílias e filhos. O carro iniciava o movimento e o menino acompanhava:
- Me dá umas moedas? Eu tô com fome...
Fábio agora olhava para o vidro traseiro do veículo, manobrando para não bater no carro de trás, pensamento no menino. Aproveitou todo o espaço, ajeitou-se no banco e engatou a primeira. O menino colocou a mão na janela:
- Qualquer coisa...
- Não tenho, filho — e apertou o botão-levantador-de-vidro-de-carro, olho no retrovisor, arrancando na primeira oportunidade. Dois quarteirões depois, parou no sinal vermelho e dirigiu a primeira palavra ao colega:
- Sabe, Matias, esse problema dos garotos de rua é uma questão muito complexa. A sociedade não pode ignorá-los e deixar que morram ao relento, mas também não pode dar esmola porque não resolve nada e estimula a pedir. A gente não pode fazer nada!
- Maldito governo — resmungou o outro.
- Isso! Maldito governo! O problema é que ninguém se preocupa em saber em quem está votando. Vota-se por obrigação ou por algum benefício pessoal. Nós, esclarecidos, acabamos pagando por todo o povo burro.
- Só fuzilando essa cambada. Ou restringindo o voto a quem “sabe o que está fazendo”...
- Concordo. Pra que um analfabeto votaria? Ou um bicha? Não sou preconceituoso, mas é preciso haver uma seleção, caso contrário a gente não avança.
- É claro, o preconceito é uma coisa horrível. Também não discrimino quem quer que seja, mas todo mundo sabe que analfabeto é massa de manobra, e que os bichas só votam em quem promete depravação e desordem...
O sinal abriu. Fábio passou a marcha, e o carro importado já corria veloz, quando sentenciou com o ar mais sensato já visto:
- Este país não tem jeito, Matias. Nós temos que levantar as mãos pro céu por ter nosso emprego, nosso patrimônio, nossa família bem ajustada. O Brasil não tem jeito...
- É...
Após deixar o colega, Fábio, o sensato, dirigiu mais alguns metros até seu prédio, guardou o carro na garagem, entrou no elevador e subiu, como todos os dias, até o quinto piso. E, como em todos os dias, a família bem ajustada o esperava para o jantar: ele tomava uma ducha, reunindo-se minutos depois à esposa e ao casal de filhos na mesa da cozinha; um toque de telefone, e Fábio ficava nervoso. A filha atendia: “é pra mim!”, o pai suspirava, aliviado. Depois o quarto, um beijo na esposa — um sexo triste, talvez — e o dia finalmente morria.
Dia seguinte, sexta-feira, uma happy hour mais animada: no mesmo bar, Fábio, Matias e outros colegas alegram-se com o som, as bebidas e os demais prazeres que o lugar oferece a quem procura. Fábio debate assuntos sem sentido, disparando frases feitas em todas as direções sem nenhum sinal de discordância; seus “equilibrados” pontos de vista eram partilhados por todos, intrépidos soldados de um exército de equilibrados pensadores pré-moldados. Intuitivamente, Fábio ratificava a tese de que o lado cômodo de todo discurso politicamente correto é que ele é, em essência, correto: ninguém ousa contestá-lo, já que é errado contestar algo correto (e quem quer parecer errado?). Trata-se da mais antiga convenção social: para ser visto como alguém sensato, equilibrado e responsável, um imbecil só precisa dizer o que todos esperam que ele diga. Em troca todos concordarão, porque também querem parecer sensatos, equilibrados e responsáveis. Se acreditam no que dizem ou praticam o que dizem, é outra história... “Foro íntimo”, diriam os canalhas.
Novas piadas, olhares, promessas, e as horas passaram rápido. À saída, Fábio, o equilibrado, imaginava que seria obrigado a passar novamente pelo constrangimento de ignorar o menino. Preparou-se, puxando um assunto com os colegas. “Ainda bem que hoje há muita gente: uma conversa mais acalorada vai deixá-lo envergonhado, com medo de incomodar.” Animados pela bebida, encharcados de liberdade, os corretos cavaleiros do escritório estavam prontos para partir. Ainda era cedo, e muito poderia acontecer, já que as gostosas de hoje estavam de carro, podendo ir e vir sem precisar serem deixadas em casa. Cada riso minguante era alimentado por uma nova pilhéria, e Fábio já partia quando percebeu que algo faltava: não vira o menino por perto.
Tudo bem, o plano funcionou” — deu de ombros — “Gente miserável! Cadê o pai, que não põe o menino ao menos em um colégio público? Deve estar enchendo a cara, enquanto o filho traz dinheiro pra casa. Dinheiro dos outros, o meu não! Não sou moralista, mas... Sei lá: um pai deve prezar a família, sustentá-la! Comigo, não! Trabalho duro, faço a minha parte. Os outros que façam as deles. Ou então o Estado; não pago esse horror de imposto pra, no final, ainda ter que gastar dinheiro criando filho de ninguém: minha família em primeiro lugar!” — E disparou rumo ao motel.
Algum tempo depois, sentiu a face aquecer e abriu os olhos para o sol que invadia seu quarto. Dez da manhã, estava novamente em casa. Todos já levantaram e cuidavam da vida, mas Fábio, mui dignamente, desfrutava de alguns direitos de cidadão sem expediente às manhãs de sábado. Esparramado na cama, uma leve dor de cabeça, tentava lembrar das loucuras da noite anterior. Tinha, ao menos, o direito a mais alguns minutos na cama, não tinha? Levemente excitado, lembrava dos gemidos da jovem parceira de farra conhecida horas antes da penetração sem camisinha e o pensamento correu veloz, passando por todas as luzes, cores, sons e sabores, até chegar ao menino.
Foi quando a excitação deu lugar a um leve desconforto: “o garoto não apenas deixou de pedir; ele não estava lá. Teria ido a outro bar, um ponto mais rentável?”. Tentou convencer-se disso, e também de que não era problema seu. Não conseguiu, não sabia por que. Então levantou, lavou o rosto e comeu na cozinha. Supermercado mais tarde, uma lida no jornal, almoço, alguma TV. Não deu certo: ainda se perguntava o que teria acontecido ao maldito morto-de-fome. Tentou um segundo round: ida ao lavador de carro, aperto da torneira, torcida pelo Mogi-Mirim no canal de esportes. O sol já ia embora e ele começava a se desesperar: iria mesmo passar o dia pensando no menino faminto? “Crise de consciência. É isso. Só o que faltava... Não: é pieguice, mesmo! O fim da picada! Como se já não tivesse problema suficiente, agora arranjo remorso... Não, não é remorso, é... Que idade ele teria? Cinco? Seis? Talvez sentisse mesmo fome: eu poderia contar as costelas...”.
Assim correu o tempo naquele dia purgatório: obtendo respostas vagas para todo assunto comentado, a esposa de Fábio parou para observá-lo enquanto ele jantava enojado, indo depois ao quarto de cada filho, beijando-lhes a fronte. Um halo de mistério o recobria, como se o menino evocasse vergonhas que nunca tivera; pudores repentinos, invasivos, lancinantes. Aos quarenta e cinco anos, Fábio ainda não sabia lidar com a sensação de erro, seguro que sempre esteve sob o manto do homem normal, do lugar-comum. Aonde fora o mundo simples e conhecido de sempre? Onde tinha ido parar a cartilha dos medíocres? Sem saber o que fazer, repentinamente sozinho na vertigem de um momento de verdade, ele distinguia respostas girando rápidas ao seu redor. Esforçava-se para agarrar uma ao menos, mas falhava, e falhava, até que, exausto, permitiu-se apenas sentir o colchão sob seu corpo e acreditar que, se pudesse encontrar o menino e dar-lhe alguns trocados, poderia libertar-se daquele prurido e voltar a ser quem era, o Fábio articulado de sempre, brilhando à luz de seu equilíbrio sensato. “Isso é que é responsabilidade social, Fábio. Só mesmo você pra tomar uma atitude tão altruísta...” Não completou o pensamento: Fábio, o responsável, adormecera.


II


- Hã... amor? Aonde você vai?
Para a esposa, seria difícil entender o que levaria o marido, às oito da manhã de um domingo, calçando sapato à beira da cama, preparar-se para sair. Mas suspeitava de que tinha a ver com aquele comportamento estranho da véspera.
- Olhe, amor, não queria te preocupar, mas é que o Matias, um colega de escritório que você não conhece, faleceu ontem pela manhã. O enterro sai hoje, e eu preciso me despedir. Vou à sua casa... Durma um pouco mais...
- Como você soube? Ninguém ligou...
- Encontrei com outro colega no supermercado, ontem.
- Por que não me contou?
- Como disse, já bastava um desolado e cabisbaixo por aqui. Não queria te preocupar, meu bem...
- Coitadinho... Por isso estava tão sisudo — e beijou-lhe a bochecha: — Espere, fico pronta num minuto...
- Não é preciso, amor, não se incomode. Fique, olhe os meninos, prepare um bom almoço e algumas palavras de conforto. Precisarei disso quando chegar... Pobre amigo...
- Oh, amor, eu sinto muito... Você está bem?
- Estou, sim. Não sei depois, quando vir descer o caixão... Ainda na sexta ficamos até mais tarde no escritório, sozinhos, atolados de trabalho, e ao sair bebemos um pouco, voltando logo pra casa... — e suspira: — Bem, qualquer coisa, telefono, certo?
- Sim, querido. Ficarei esperando.
De onde havia saído tudo aquilo, Fábio jamais saberia. Mas não estranhou o tom convincente, já que possuía na mentira uma segunda língua. O que precisava agora era sair o mais rápido possível, não prolongar a conversa: já havia obtido a permissão para sair, não havia sentido em arriscar-se mais. Correu para a porta e, minutos depois, já cruzava o portão da garagem em direção ao barzinho. Certamente estaria fechado, e não haveria nenhum pedinte à calçada, mas era domingo e havia tempo livre: ele poderia investigar. Algum funcionário, lavando o local, ofereceria uma pista. Com sorte, talvez até encontrasse o menino por perto, dormindo em alguma calçada. Chamaria o infeliz, faria sua boa ação e não mais precisaria sentir-se pior do que era.
Ao chegar, avistou um faxineiro corpulento que tentava passar com uma pilha de cadeiras por uma porta minúscula em direção ao pátio lateral. Acertara em cheio: estavam fazendo a limpeza, preparando o bar para a noite. Manobrou o carro no local sem pensar que dezenas de cadeiras ainda seriam lavadas e espalhadas naquela área para secar ao sol; o importante era resolver seu problema. Saiu do carro, dirigindo-se ao sujeito:
- Bom dia. Você trabalha aqui?
O sujeito, vigia até a meia-noite, garçom até as duas da manhã e faxineiro às oito, cinco filhos para criar, aborrecido pela obrigação de cedo estar de pé e moer seu corpo no ônibus até o trabalho, logo antipatizara com o “doutor” que o impedia de terminar a limpeza. Quanto mais cedo a concluísse, mais cedo voltaria para a casa, para a cama. Mas não podia, porque um idiota qualquer achava que sua urgência era mais importante que o sono de um negro pé-rapado. Naturalmente, escolheu sua melhor resposta seca:
- Sim, por quê?
- Porque eu queria saber uma coisa, amigo...
- Não sei! Quem quer que seja, não vi nem ouvi!
- Calma, não quero problemas, não procuro ninguém... Ou melhor, procuro...
- Hum...
- Mas não é ninguém daqui. Ou melhor, é, mais ou menos...
- É ou não é?
- Escute: vai parecer doidice, mas eu preciso encontrar um menino que ficava por aqui, na calçada, à noite, enchendo o saco. Era bem pequeno, assim, ó... — e mediu o tamanho do menino na própria perna. O negro continuou andando, cadeiras nas mãos, sem olhar para Fábio, tentando chegar a um canto vazio.
- O que ele roubou?
- Não roubou nada, eu só queria vê-lo. Sabe onde os garotos ficam? Para onde vão, quando acabam de fazer ponto? — e atalhou o caminho do faxineiro.
O homem tentou encontrar uma última gota de paciência, mas não tinha mais nada:
- Mestre, que eu saiba, quem faz ponto é puta; ou puto, dependendo do freguês. Mas eu saio tarde daqui, e sempre vejo uns garotos andando na direção da marginal...
Fábio olhava estático para o homem. Não lembrava de um dia ter sido tão desrespeitado. “De repente, apenas por pensar em agir melhor, passo de sensato a estúpido, destratado por qualquer paraíba analfabeto. Mas não se preocupe, preto dos diabos: a situação ainda vai piorar, e você ainda vai me pedir esmolas. Aí, voltaremos a falar em puta...”.
Não respondeu nada: era desnecessário puxar briga com alguém tão ignorante (e tão grande). Entrou no carro e seguiu para a marginal do rio, lembrando de já ter visto barracas em um certo ponto da margem. Na ocasião, acompanhado, observara que uma forte chuva inundaria aquilo tudo, e fora muito aplaudido ao completar a “análise” com mais algumas frases feitas: “o que falta é uma política pública eficaz para acabar com a desigualdade social”; “esse rio imundo é uma vergonha”; “precisamos de uma arquitetura urbana mais adequada ao crescimento da cidade”; “enquanto não se investir em educação...”. Mas não lembrou de que, empolgado pelo discurso, defenestrava ao rio sua latinha de cerveja e acelerava. Tempos idos...
De volta ao presente, tomou a via secundária, estacionou em local permitido, atravessou o canteiro e andou muito pela pista marginal até o tal ponto conhecido. Era quase meio dia quando avistou, bem abaixo do nível do asfalto, além da mureta de concreto, uma única armação de madeira revestida com papelão. Nela encontrava-se um homem branco de meia-idade, queimado de sol, ressonando no chão. Além dele, uma cafuza trintona de oitenta e poucos quilos, sentada, mexendo um caldo na panela escura ao fogo, observada pelas moscas do rio e por um casal de crianças cujo aspecto lembrava o pedinte da quinta-feira. Conseguiu: ali estava a família do menino. E ele, onde estaria?
Aproximou-se, indagando a si mesmo se a origem do fedor era o rio, os ocupantes da cabana ou o conteúdo da panela. Parou a poucos metros, sem saber como atrair a atenção. Nervoso e ridículo, bateu umas palmas sem cadência. A cafuza respondeu, sem sair do lugar:
O qui o sinhô qué?
Bom, eu... Bem... — Fábio não sabia por onde começar. O que fazer ou dizer, se a cor, o cheiro, a concretude da miséria entorpecia-lhe o pensamento? Em resposta a uns gaguejos, a mulher auxiliou:
O pneu furô? Qué qui ajudi a trocá? — e as palavras, enfim, brotaram arrastadas:
Não... Não é isso... É que eu acho que procuro um menino que mora aqui...
Como eli é?
Bem parecido com este aqui, só que menor... Na verdade, acredito que seja seu irmão.
O que eli feis?
Nada, nada. Eu só queria encontrá-lo... Queria lhe dar... Hã... Um presente...
Pruquê? — e a conversa foi cortada pelo barulho do estômago da menina, moreninha de seus três ou quatro anos, olhos vivos, calcinha encardida, cabelos encaracolados e dedo na boca.
Em um minuto, Fábio derreteu e se reconstruiu. Refeito, sentia que utilizara, na reconstrução, o que de mais estúpido havia em matéria de componentes humanos. Sentia-se burro e impotente, mas ainda era o mesmo Fábio sensato e equilibrado: aquela situação era fruto do descaso político e da opção, dos próprios miseráveis, pelo sexo ao estudo. “Gente miserável! Eu nunca viveria assim. Se estivesse nesta pobreza, saberia me esforçar para livrar-me dela. De alguma forma, eu daria um jeito. Malditos pobres de espírito! Maldito governo! Malditos analfabetos políticos... Malditos...” E, sufocado, sentia-se cada vez mais indefeso, mais ferido por aquela dose concentrada, maciça, de realidade. Um discurso padrão não o libertaria, não havia como fugir. Tentou seu melhor tom de naturalidade, ainda sem saber o que falar, ou o porquê de estar ali, sujando o couro italiano do sapato a anos-luz de seu prédio seguro:
Ele... Me pediu uns trocados, e na hora eu não tinha...
Dévi sê o Fabinho! — falou, alto, o irmão mais velho.
É, moço. O sinhô devi tá percurano o caçula. O nome dele é Fábio, e ele tá num sinal aqui pertu. Daqui há pouco tá chegano prá cumê, e o sinhô fala cum ele...
Ouvindo o nome do menino, Fábio não falava mais, nem esboçava qualquer gesto ou sentimento. Apenas sabia que estava lá, inerte, pensando que naquela manhã fora tratado, pela pobreza dos que “não sabem o que estão fazendo”, como um imbecil; minutos depois, como um integrante, um sócio honorário da podridão. Em uma única manhã fora doutor, idiota e miserável, arrastado de seu lugar-comum-classe-média ao lugar-comum-indigente. E, pior, começava a se ver assim. Como não se ver indigente descobrindo-se tão raso, tão vazio? Em meio ao cheiro fétido, à lama e ao nada, o mundo só mesmo poderia ser visto desta outra perspectiva. Como se todo o falso discurso, a frase feita e a fala vazia fossem conseqüências de algo maior, de uma pré-disposição ao comodismo, à segurança. “E por que não gostaria do comodismo? A opção seria admitir que sou mesquinho e estúpido, incapaz de ter coragem de criar qualquer situação, melhor ou pior, mas nova. Admitir que é isso que ensino aos meus filhos. Não... O conforto da retórica boa-praça é melhor...”. E quanto mais sabia sobre si, mais sentia a dor que já começara ao ver a cabana. Mais descobria que, para a maioria dos normais papagaios-de-pensamentos-há-muito-repetidos, verdades são fontes de um crescente mal-estar, e que este não é conseqüência do discurso politicamente correto, do conceito em si, mas da teimosia em proferi-lo em qualquer ocasião, sem a mínima preocupação com o seu real sentido. A mulher falava coisas inaudíveis, o brilho do sol refletido na água o cegava, e o mundo, súbito, era um borrão, assim como os sons, o gosto da saliva ou a lembrança da vida hipócrita que levara até então. O próprio ar era um borrão. Então agachou-se, procurando respirar. A mulher segurou-lhe os ombros: “moço! Moço!”. O marido acordou:
O qui tá aconteceno? Quem é esse?
É um dotô que tá percurano o Fabinho.
O que ele tem?
Nada. Dévi sê o calô. Sentaqui, moço. O sinhô parece fraco. Espera que a bóia já fica pronta, o sinhô come um pirão e pega sustânça... Só num repara a comida, que é de pobre...
N-não... Obrigado...
Num carece agradecê... Tem muito, o Fabinho conseguiu uma boa grana, ontem. Um bom menino, o meu Fabinho. Eu acordei hoje e ele já tinha saído, e deixado o pacote de farinha do meu lado. Só num tem muita carne porque nóis num tem geladeira, né? Aí estraga... Por isso o marido não trais muito... Pronto, táqui: come um pouco... Num repara... — e passou-lhe um caneco de alumínio com o caldo malcheiroso e um punhado de farinha.
Meio dia e quarenta no Rolex. Ainda havia nojo, dor e mundo borrado. Mas Fábio estava um pouco mais próximo daquela gente que não se importava em partilhar sua desgraça com um novo colega de miséria. Podia ouvi-los, até. Soprou o interior do caneco, agitando-o para misturar o conteúdo, e sorveu o caldo.
Obrigado... — outro gole depois:
Vocês moram aqui há muito tempo?
Não, dotô — respondeu o homem — mais sempre teve gente por aqui, na margem. A gente não somo os primero.
Nem vamu sê os úrtimo — completou a cafuza — Sempre vêm pra cá os que num têm outro lugar pra ir, ou estão de passagem, ou perdem sua casa...
Como vocês? — Fábio perguntou ao homem.
Sim, como nóis. Nóis nem sempre viveu assim, dotô. Já tivemos bem melhó, quando morava na encosta, perto da favela. Era sossegado lá, as boca de fumu ficavam longe, e a bandidagem não se importava com aquele local.
Então por que saíram de lá?
Foi a vez da mulher falar:
Pruquê a chuva desabou a encosta. Nossa casinha ficava bem na base, pruquê a parede era rocha e servia de apoio. Mas o temporal foi muito forte, e feis caí muita lama. Era manhãzinha, este aqui já tinha saído pro trabalho — e apontou para o homem, olhos úmidos — e não deu tempo de salvá nada. Nem minha filha... Minha filha...
Tudo o que Fábio podia fazer era quedar-se burro, sentado, caneco quente na mão, olhando para baixo, enquanto o homem abraçava a cafuza. Devia ter calculado: é claro que a história daquela gente era amarga, devia saber disso, e não revolver possíveis feridas. Não percebia que lamentava por eles; pensava apenas que arrependia-se de ter evocado aquilo: lágrimas sempre serão salgadas, não importa de quem sejam. Tentou remediar com algumas frases feitas, mas desta vez, sinceras:
Olhem, o que passou foi muito triste, mas agora vocês estão aqui, vivos e criando seus filhos... Pensem daqui pra frente. A vida ainda pode ser melhor.
Recebeu dois pares de olhos em sua direção. O casal ainda estava abraçado, e fitava o doutor em agradecimento pela iniciativa, mas incredulidade naquelas palavras: o que podia saber disso alguém tão diferente, tão alienígena? No mundo daquele “dotô” não havia encosta ou o desespero de puxar as pernas soterradas de uma criança ofegante, sem ar, com o barulho de toneladas de entulho apagando gritos; não havia gotas de chuva aceleradas pelo vento forte, picando o rosto como agulhas, impedindo de abrir o olho e ver um sofrimento convulsivo expresso em espasmos de um pequeno par de pernas. Só mesmo sem viver esse horror seria fácil “pensar dali pra frente”, mas sabiam que a intenção do alienígena era confortá-los, então não responderam com aspereza. Apenas agradeceram, com o olhar, o esforço bem intencionado de um ignorante de bolso forrado.
Fábio sabia disso. Sabia que nunca seria capaz de entender aquela vida, sabia que o que disse era tudo o que podia oferecer e que mesmo sendo tão pouco não ouvira nenhuma queixa ou palavra amarga. Então descobriu-se fazendo algo de que, pela manhã, jamais acreditaria ser capaz: admirou aquele grupo, e o respeitou como ainda não fizera com a sua própria família. Ao cabo de alguns minutos Fabinho chegou, face vermelha de sol, reconhecendo no miserável recurvado sobre o caneco de pirão a face do esnobe que lhe recusara moedas na calçada do barzinho, mas com um ânimo diferente. Mesmo assim, manteve-se desconfiado. E, desconfiado, inquiriu:
O moço, por aqui?
O-oi, filho... — retrucou Fábio, rosto iluminado. “Ufa! Ele está vivo e tem família. Sorte a dele. Sorte minha... E agora? O que digo?” — Er... Você sabia que também me chamo Fábio?
Fabinho viu, nos olhos do xará, a falta de atenção, o asco e o vidro-de-carro-levantado, mas isso não seria suficiente para uma reprimenda. As necessidades do menino eram muito mais básicas do que vingança, não por dignidade ou altivez, mas por instintivo senso de prioridade: “vingança não traz sobrevivência; subserviência, sim...”. E respondeu:
Não... O moço tá perdido?
Não, filho. Estive procurando por você a manhã toda.
Eu num fiz nada...
Eu sei. Eu é que fiz: na quinta-feira, não te ajudei. E não ajudei porque não tinha... — seria demais esperar que um simples momento de iluminação fosse capaz de inserir verdade em uma classe social acostumada a cinco séculos de mentira e controle sobre o brasileiro subjugado — Então o procurei até encontrá-lo.
Fabinho ouvia olhando fixo aquele homem incapaz de lhe devolver o olhar. Viu o homem erguer-se, sentiu sua mão grande e alva afagar-lhe a cabeça. Tivesse maior experiência de vida, o menino saberia que o homem de pé, todo sorrisos e carinhos, não era o mesmo que, minutos antes, bebia caldo sentado, arrasado. Saberia que, para Fábio, um breve momento que acenasse com a possibilidade de redenção jamais teria força para mudar sua visão de mundo. Porque mudá-la implicaria em parar com os gastos sem sentido para dar a correta educação aos próprios filhos (não apenas pagar-lhes escola e livros). Implicaria em preocupar-se com o futuro de seus descendentes ajudando o crescimento dos estranhos, custeando, por exemplo, a educação de um órfão em uma creche (não precisaria adotar: o apoio e alguma presença já seriam bem-vindos). Implicaria em admitir que o mundo de sua família seria bem melhor se outras famílias tivessem não o mesmo patrimônio, mas a mesma chance de uma vida digna, e que isso deveria partir dele, não do Estado (pois ao Estadista sempre interessará manter-se no poder, não melhorar a vida de quem quer que seja). Era pedir demais, e tarde demais. Para alguém que entendia o abismo sócio-econômico brasileiro como a conseqüência natural de que os homens são necessariamente diferentes, uma ruptura valorativa jamais teria voz (ou vez). Para Fábio, assim como seus filhos, realmente era tarde demais.
Tome, Fabinho. Pegue seu pai, e faça uma bela visita ao supermercado. Isto não resolverá sua vida, mas ajudará por pelo menos uns seis meses...
Brigadu, moço...
Não precisa agradecer, filho — e, totalmente refeito, sensato e equilibrado, lascou:
Se todos fizessem a sua parte, o mundo seria muito melhor!
Despediu-se, apressado: “nossa, já é tarde e minha família está esperando! Preciso ir. Fiquem com Deus.”
Sob uma chuva de bênçãos, fungados de choro e agradecimentos, Fábio afastou-se. Já pulara a mureta e ganhara o asfalto da marginal quando o menino percebeu que a chave do automóvel fora esquecida, talvez tivesse caído do bolso do “bom dotô” ao sentar-se para comer. E correu para devolvê-la.
Fábio somente sentira a falta da chave quando atravessara o canteiro. Estava em frente ao carro, praguejando: teria que percorrer todo o caminho de volta! Então voltou-se, resignado, quando viu o menino, esbaforido, transpondo a mureta com a desenvoltura de alguém que poderia ser um atleta olímpico com o correto apoio, gritando:
Moço! Moço! A chave...
Fábio correu para intervir, mas era tarde: o menino fora colhido pelo caminhão que não brecara a tempo, não havia nada a fazer. Ato reflexo, apalpou os bolsos mas não encontrou o celular que chamaria a unidade móvel de saúde. Assim, em meio à multidão de curiosos, ao desespero do motorista e aos gritos de “ambulância”, o bacana discretamente apanhou a chave, como se fosse a única atitude sensata àquele momento, e andou em direção ao carro. “Ficasse aqui, seria acusado pela família do menino, que esperaria que eu pagasse enterro e me sentisse, de alguma forma, padrinho dele e responsável por todos, prontos para viver às minhas custas. E se quisessem um dia visitar-me no prédio, conhecer a família? O que diria aos vizinhos? Ao porteiro?”. Se havia alguma lição na morte de um “pobre” para manter um símbolo de status com seu dono “remediado”, era tarde também para aprender. Às favas Darwin e seus fortes, Durkheim e sua sociedade orgânica ou o velho Maquiavel com seu príncipe escroque: “todos eles e suas idéias já morreram, e o que hoje existe sou eu, o Homo vulgaris brasiliensis! Quem vai encarar?”. Já pagara o que devia e com isso obtivera permissão para ir embora. Não havia sentido em ficar, devia escafeder-se do local.
Próximo ao carro, Fábio passou por uma outra figura, envolvida em uns trapos sujos. “Pelo visto, hoje é o dia do encontro com a miséria”. Mente no menino, olho na mendiga, ávido por prevenir qualquer novo prurido, chamou:
Ei, velha!
A idosa estacou, surpresa. Ainda tentava entender o que acontecia, quando Fábio lhe encheu a mão de trocados.
Isto é pra você comprar umas coisas. Troque de roupa, coma algo.
A mulher esboçava um “obrigado”, mas Fábio já estava ao volante, acelerando, procurando o primeiro retorno. O menino fora esmagado pela vida, e pronto. Deveria ele, Fábio, também ser? Deveria fraquejar ante o sentimentalismo e repartir tudo o que tinha com todo caído que encontrasse? Por certo, cairia também! Sucumbisse ele, o que seria de sua família? Teriam estrutura emocional para viver em uma cabana às margens do rio podre? O menino morrera, mas, afinal, dera dinheiro à sua família. Dera dinheiro também à velha que arrastava-se na rua. “Fiz minha parte, mais do que faz muito engravatado por aí, eleito para roubar”.
Ao encontrar o retorno, Fábio era um homem “muito melhor”. Além de sensato e equilibrado, tinha a certeza de ser também responsável: não tentara descobrir o paradeiro do menino até ajudá-lo? “Se isso não for responsabilidade social, não sei mais o que é”, suspirou fortalecido. O incômodo sumira e sentia-se pronto para a velha vidinha de mentiras e preconceitos. Fábio, o responsável, gozava do direito de sentir-se orgulhoso de si mesmo e acelerava de volta para a normalidade, certo de que a verdade nunca o alcançaria, por mais avisos que recebesse da vida.
Ao chegar, vencedor, orgulhoso, guarda o carro e treina, em frente ao espelho do elevador, seu melhor abatimento: o velório não fora fácil, e o enterro, insuportável. Quinto piso, é surpreendido pela esposa, à porta, olhar furioso e voz estridente:
- Boas notícias: o Matias ressuscitou e ligou pro teu celular, querendo saber como tinha sido a “reunião” na sexta à noite!
 
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Registro no Escritório de Direitos Autorais (EDA),
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CONSEQUÊNCIAS -
AUTOR: RHOBSON CHRISTOPHER -
Registro EDA-BIBLIOTECA NACIONAL/RJ:
471049-04/09/2009.

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da imagem:

Rabisquei esta figura, agora(22/09). Ela representa a falta de certeza de alguns em seus valores intrínsecos -- ou antes, a fragilidade das convicções individuais de quem não produz e se deixa levar pelo discurso pronto em um status quo erigido para controlar. Ou é só um rabisco qualquer.