'Alívios Imaginários' de Rhobson Christopher Costa dos Santos




Rhobson Santos, Bacharel em Direito e pesquisador do Direito Internacional dos Direitos Humanos, faz um retrospecto de sua vida, não sem antes opinar sobre os fatos do mundo, inclusive o 11 de setembro americano. 

Nem nômade e nem bárbaro, Santos chega à conclusão de que seu desenho é o mapa dos direitos humanos em nível global. Quanto ao Brasil, expõe sua visão da sociedade tupiniquim em quatro volumes de contos ainda não publicados. Acompanhe o seu raciocínio.
"No que se refere a governo, condução política, é difícil traçar uma linha lógica de encadeamento sobre os acontecimentos de outros países: se hoje temos um neoliberalismo que já está entrando em colapso (e isso envolve a todos), ao mesmo tempo não podemos dizer qual seria o melhor modelo geopolítico de afirmação dos direitos humanos a ser adotado em cada país. Nossa cultura ocidental é calcada em princípios jurídicos que foram, sob diversas conformações, se moldando, se consolidando, até resultar no que hoje chamamos de Direitos Humanos, em todas as suas gerações. Só que, entender a questão humanitária ou a questão dos direitos humanos, sob a perspectiva global, é não apenas falacioso, errôneo, mas perigoso. O aspecto cultural de cada país é ainda muito mais forte do que o que acreditamos que seja 'direitos humanos': Qual seria a melhor maneira de tratar a mulher? Qual seria a melhor maneira de cuidar das minorias? Eu não sei, não existem respostas prontas. Se por um lado nos deparamos com sociedades no médio oriente, no oriente próximo, que têm costumes um pouco diversos daqueles que temos como padrão, por outro, não temos condição de dizer ser errado ou correto aquilo que pode ser mais bárbaro do nosso ponto de vista ocidental. As condições de nossa economia (com todas as desigualdades e arbitrariedades que pode ocasionar) soa para eles tão bárbaro quanto. Mas uma coisa é certa, a questão dos direitos humanos deve ser repensada e protegida, dentro de seus limites sociológicos e mesmo antropológicos. Nós devemos lutar por essas questões dentro de uma determinada área cultural. Existem direitos humanos que devem ser protegidos sim, aqui, no Brasil, e que não serão necessariamente os mesmos direitos que serão protegidos na Arábia Saudita, na China ou em Zimbábue.
O 11 de setembro americano pode ser tomado como exemplo. Este fato não é o começo de reflexão, mas um ápice, um trágico final dos caminhos geopolíticos escolhidos não apenas pelos EUA, mas pelos vários atores mundiais. O desenrolar de um conjunto de medidas econômicas e políticas adotadas desde a década de 70 (até antes talvez), desde que começamos a ver que o mundo poderia ter uma crise envolvendo a então principal reserva de energia, em 1973, os nossos governos do mundo do petróleo começaram a pensar nas saídas de eficiência, e elas passavam pelo aumento de divisas. Do jeito que seus governos pós-militares conseguiam, ou podiam (e do jeito que o FMI permitia), o Brasil começou a produzir mais, e a exportar também. Todos queriam fazer o mesmo, exportar mais do que importar, e naturalmente os EUA apenas intensificaram o que já praticavam, em sua política comercial internacional, desde antes do século XX. Nessa corrida, alguns conceitos começaram a ser esquecidos: cada país estava pensando no seu próprio PIB - a que custo, nós não sabíamos. Talvez o 11 de setembro americano do início do século XXI tenha sido um desses custos e tenha ocorrido como uma 'sacudida' para repensar. Algumas ONGS iniciaram essa reflexão. Certamente, não foram os governos que fizeram.
Atos extremos podem ser chamados de 'terroristas' em um país. Em outro, devido a outra cultura e necessidades, podem ser chamados de 'retaliação', 'atos heróicos', 'respostas a agressões anteriores'. Apesar de constituírem atos repudiáveis, apenas serão devidamente combatidos a partir da análise de suas causas, dos eventos anteriores. Eu não posso dizer, de forma peremptória, que o 11 de setembro americano foi um ato terrorista pura e simplesmente pela perspectiva da violência, da covardia e do número de vidas ceifadas (isso ocorreu em nível mais acentuado em duas cidades inteiras no Japão de 1945, e o mundo entendeu como 'resposta' a uma anterior agressão). A perspectiva de futuro das sociedades será traçada a partir da consciência das consequências do presente. Para o bom administrador, o balanço é feito de coisas passadas. É assim que os governos devem agir. Esquecer é extremado. Nós estamos tão interligados, que até certos órgãos mundiais (como o referido FMI) perderam o papel principal. Se cair uma geada em São Paulo, os Estados Unidos se beneficiam porque vão exportar mais laranjas; passa um tufão no meio oeste americano e o Brasil se beneficia porque será ele a exportar as laranjas. Temos um conjunto de países que integram uma união econômica na Europa e já se está pensando em excluir aqueles cuja economia não consegue acompanhar a dos demais. O que, numa perspectiva humanitária poderia significar isso? Ruptura de direitos humanos? A constatação de que é melhor quebrar um país do que a moeda? E se a manutenção desses países ocasionar um fardo econômico tão grande para os demais que a crise financeira daí decorrente acabar afetando (e afetará) a todas as demais nações? Este é o grande impasse do pensar a condução geopolítica sob o prisma dos direitos humanos".
Rhobson Christopher Costa dos Santos, paraense, faz 40 anos no dia 9 de outubro. Fez quatro anos de Farmácia, um ano de Educação Artística (habilitação desenho), um ano de Ciência da Computação, um ano de Direito em Macapá (UNIFAP) e mais cinco anos do mesmo, na Universidade Federal do Pará, tendo concluído seu curso com pesquisas na linha do Direito Internacional dos Direitos Humanos sobre o acesso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, pós-graduando em Direito do Trabalho. Aprovado no último concurso da Rede Cultura de Comunicação. 

Sobre as várias trilhas percorridas, pondera: "Diz Heráclito, filósofo grego, que 'tudo passa, que a vida é um fluir...' É uma forma de ver o mundo... Outra forma, é pensar que tudo é cíclico. Às vezes você tem um determinado caminho e nem sempre pode segui-lo numa linha reta. Acredito que no meu caso, tenha contornado muitos obstáculos, e isso me fez (e ainda faz) entrar em áreas que não tenham muito a ver com a minha formação básica. Como exemplo, em 1994, após uma oficina de história em quadrinhos com o famoso quadrinhista Bené Nascimento, fiz parte de um grupo de autores (o saudoso grupo 'ponto de fuga') cujas reuniões eram realizadas às tardes de sábado, no Curro Velho. Alguns escreviam, enquanto outros desenhavam e criávamos fanzines (revistas artesanais) de quadrinhos. Se nós formos enquadrar a questão do conhecimento, penso que tudo é interligado. eu não seria hoje o que eu sou, se não tivesse passado por todos esses cursos e não tivesse feito as oficinas que fiz. Na época do ponto de fuga, estava fazendo o quarto ano de Farmácia. Conheci, dentre outros, o Andrei (Miralha) e o Miguel De La Lor (atualmente, um conceituado quadrinista na França), e hoje sei que esses encontros foram uma espécie de 'coroação' daquilo que já acontecia dentro de mim: sempre gostei muito de desenho, e, encontrando pessoas que falavam a mesma língua, um estopim foi aceso e de repente o meu caminho estava claro. De Farmácia, fui para Educação Artística (como eu procurava o desenho, aqui, naquela época...naturalmente, não encontrei um lugar que me 'formasse' em quadrinhos), antes de trabalhar em agências de publicidade, como a Mercúrio, a Usina de Propaganda e a Norte Propaganda. E veio a Ciência da Computação, o mundo virtual, acenando com a possibilidade de um outro rumo, mas não me vi por lá. Corriam o anos 90, e tudo (inclusive eu) ainda era um pouco incipiente (e incipiente, também) por aqui. O fato de não encontrar o que procurava, logicamente, trouxe preocupação à família e a mim: cada nova mudança trazia consigo novos saberes, mas novas guerras (internas e externas). A conta simplesmente não fechava. Passei um tempo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Curiosamente, se não tivesse passado no curso de Educação Artística, aqui, talvez hoje estivesse trabalhando no estúdio do Maurício de Sousa (onde apresentei trabalhos). E não concluí nenhum desses cursos... Então veio Macapá, onde fiquei três anos e, no último deles, cursei Direito na federal de lá. De volta a Belém, fiz novamente vestibular para Direito, desta vez na UFPA (concluí no ano passado). Penso que este curso tem o que é imprescindível para todo aquele que se preocupa com o que acontece em volta de si: ele o exorta a expressão. E, por conta disso, escrevi o primeiro de quatro livros de contos que, de um modo geral, convidam à reflexão sobre como a sociedade brasileira pós-governo militar apresenta-se estruturada. Cada livro aborda um aspecto: nosso eu interpessoal, nosso eu político, nosso eu religioso, e nosso eu jurídico. Alívios Imaginários é o primeiro: com aproximadamente 32 contos, fala sobre as relações interpessoais. Em Macapá, pude perceber a realidade local, assim como em São Paulo, Rio de Janeiro, Belém. Não difere muito. Nossos medos, nossas angústias, são basicamente as mesmas. Assim como, infelizmente, é a mesma a incapacidade de confrontar nossas fraquezas enquanto sociedade que ainda não deu certo. Nossas fragilidades enquanto nação, que ainda não conseguiu se afirmar, em 500 anos. Neste sentido, a conta fecha: observar tudo isso foi válido, por ter passado por tantos lugares. Captações ricas ou, se quiser, alívios imaginários de um observador sem linhas retas".
 
- entrevista concedida na Biblioteca da Cultura, em 08/09/2011.