Samba de 1,78 de altura: Lourdinha Bezerra



Se Bezerra da Silva foi o Embaixador do Samba, Lourdinha Bezerra é a nossa Rainha Branca do Samba. Se ele foi o Partido Alto, ela é super alta, com quase 1,80 de altura. Bezerra da Silva e Lourdinha Bezerra não são parentes, mas têm algo comum, o samba.
Falar do Clube do Samba(programa da Rádio Cultura que vai ao ar todos os sábados, de 12 às 14h) e mais adiante dos Filhos do Samba(grupo que será lançado no segundo semestre deste ano), tem tudo a ver com Lourdinha Bezerra, jornalista e especialista na área.
Paraense, de origem amazônida e francesa, Maria de Lourdes Cantanhêde Bezerra, 49, completa 50 na próxima terça-feira, dia 28 de junho, está na Rádio Cultura há 21 anos, destes, 20 vividos com o Samba. Além de programadora musical e produtora do Clube do Samba, também é co-apresentadora, juntamente com Janjão, seu par de locução. Mas a jornalista exerce ainda, há 16 anos, a função de assessora de imprensa na Federação Sesc-Senac. Os dois lados da moeda. 'Em um, trabalho a notícia, no outro, sou a notícia', diz Bezerra, já que é excelente a audiência do programa popular, e por não acreditar que não exista nada mais genuinamente brasileiro, com a cara do povo, do que o samba, a vertente musical samba, momento em que Lourdinha cita Nelson Sargento(músico), 'o samba verga, mas não quebra', os modismos vem e vão, mas o samba tá sempre lá, diz.
'Eu tenho orgulho de dizer que faço parte dessa história no estado do Pará. Ninguém deixa de falar do samba paraense sem citar o meu nome e o do Janjão. Fiquei feliz quando o Edgar Augusto me colocou o apelido de 'Rainha Branca do Samba'. Mas para chegar nesse ponto, explica a especialista, depois de formada e trabalhar em empresas aéreas, veio para a Cultura em 1990 e produziu vários programas, até cair no samba. E com ele vieram os prêmios de Patrimônio Cultural, Comenda da Câmara Municipal de Belém(2007), e o Troféu dos Bailes dos Artistas(2009), destaque da cultura no estado.
Belém é uma terra de muita magia, cheiros e ritmos, porque uma terra que tem o carimbó, o brega, e que passa por uma vertente cultural que atinge o jazz, e que pelos históricos se comprova que antes do samba 'Pelo Telefone', gravado em 1934, já existia samba produzido em Belém do Pará, contudo, sem registrado em cartório, portanto, é uma terra que dá samba também, alerta Bezerra, baseada nas pesquisas de Nazareno Silva, falecido em setembro de 2009 e que foi programador musical da Rádio Cultura e do Clube do Samba.
Lourdinha Bezerra nos conta que desde a década de 80, o Clube do Samba vem para garantir que o sambista pare de ser apenas batuqueiro. 'São músicos, profissionais que têm lugar ao sol, de janeiro a janeiro, sem se prender na época de carnaval. Existem em Belém mais de seis casas noturnas voltadas para o ritmo de samba, como a Casa de Noca, Vitrola, Mesa Redonda, várias casas que acolhem esse segmento, esse ritmo, que é o samba, e que está crescendo, se profissionalizando. Há músico que vive de samba. Atualmente não é mais visto como uma coisa marginal, porque samba era sinônimo de malandragem, de bandidagem. Hoje em dia apresenta outro leque, uma outra fachada, mas ainda assim, será perseguido pelo preconceito, apesar de tudo. Não podemos dizer que não existe mais aquele olhar de que o samba é coisa de gentalha, gente à toa. Mas estamos aí para provar que o samba é cultura. São mais de 15 intérpretes de samba em Belém e que não são ditos puxadores de escola de samba. São intérpretes da música. Com isso, o samba saiu da calçada, saiu do lado marginalizado, do boteco do pé sujo, da lama, como diziam, sai do gueto e vai ao teatro e casas noturnas, com uma roupagem nova. O paraense não adquiri o ritmo, ele nasce com o ritmo embrenhado nas veias. O povo nasce musical. Essa mistura de índio com o caboclo, os descobridores portugueses, o sangue latino, só colabora. O samba não tem cor. O que existe são mentalidades, discernimentos, conhecimento, declara a especialista.
Sempre gostei da boa música, revela, quando era criança e morava no Amazonas, gostava muito de ser repentista. Infelizmente minha mãe(hoje se arrepende) não entendia porque eu passava o dia inteiro rimando, e aprendi a ler com quatro anos de idade. Um dom que foi interrompido. Meu pai pagava boi para dançar em frente de casa. Digo que o samba fez o resgate, já com 30 anos de idade. 'Mas nada foi em vão. Vejo os frutos. Vamos lançar o grupo Filhos do Samba, no segundo semestre. É a nova geração de sambistas da terra. São meninos de 13 a 19 anos, que vêm dar segmento ao que a gente plantou. Nasceram e se criaram ouvindo o Clube do Samba. São filhos de músicos e do ritmo samba. São 8 músicos, dois produtores e uma assessora de imprensa. Eles mesmos vão fazer tudo. O primeiro show será em um teatro. É um presente para mim. É a renovação na cultura', finaliza o pensamento.

Link do Programa Clube do Samba – 20 anos



- entrevista concedida na Biblioteca da Cultura, em 20/06/2011.
- imagem do arquivo da Lourdinha Bezerra.