Entrevista com Edson Matoso: 'O Falador'



No dia 13 de novembro, Antonio Edson da Silva Matoso fechará o ciclo dos 60 anos de idade e 41 de profissão. Edson Matoso, radialista e jornalista, era conhecido como 'Falador'. 

Vem do rádio e da TV. Sem papas na língua, do tipo sangue quente, agora encontra-se do outro lado do balcão, como diretor da Rádio Cultura.

Diz-me ele, atualmente 'diplomático'. E, diplomaticamente, deixa correr suas opiniões, de forma mais branda, sem alterar, no entanto, sua característica original. Está provocando a Academia Paraense de Rádio e nomeou uma mulher para comandar o departamento de Esporte da Rádio Cultura. E não é o fim do caminho, 'ser diretor é apenas um laboratório de vida', ressalta. Sua experiência profissional é dinâmica e marcada por quebra de paradigmas. Um homem de mudanças, sem querer ser. Cai-lhe no colo, como ocorreu com a sua especialidade final, o esporte. Comentarista do programa da Rádio 'Esporte é Cultura', de 2ª a 6ª, das 06h30 às 07h00 e apresentador do Jornal do Esporte, no SBT, durante a semana, das 11h55 às 12h30. Mas há o lado político também. Matoso foi o primeiro deputado estadual pela legenda do PSDB e há 41 anos atrás pisava num palco para participar de um concurso ao vivo pela televisão(TV Guajará, então filial da Rede Globo), para ser locutor. Venceu as três eliminatórias do único programa existente no Pará chamado 'Momento de Arte'. Inicia sua história.

De radialista a jornalista, por quê o esporte?

Não escolhi o esporte, impuseram-me. O início da minha função foi locutor comercial. Não conheço no Pará nenhum evento como o do concurso de que participei, ao vivo, para ser locutor, apresentado pelo professor Milton Assis, da Academia Alencar Terra, exibido todos os sábados, no 25º andar do edifício Manuel Pinto da Silva. Na época, desde os 16 anos, catequista, dava aula para crianças, a noite alfabetizava adultos e estudava a tarde, no colégio Augusto Meira, quando surgiu, dois anos depois, essa oportunidade, e talvez seja o último dos moycanos a participar de um evento ao vivo pela TV e de seleção, com cerca de 20 candidatos entre engenheiros, médicos, advogados, locutores. Passei nas duas primeiras eliminatórias no primeiro lugar e na última, já confiante, resolvi me apresentar com camisa gola rolê, não permitido, somente paletó e gravata. E é daí que vem a minha relação significativa com os operadores, os profissionais que ficam atrás das câmeras de TV e do Rádio. De uma hora para outra, eles conseguiram camisa, paletó e gravata. Deram um jeito, prendendo com fita adesiva os excessos e assim, me apresentei. Já vinha com dez em cada eliminatória, na última, aprovado e contratado mesmo obtendo a nota mínima, cinco. Onde travei? Na apresentação de textos em inglês e francês. Na verdade, eles queriam também um locutor de rádio, além da TV. A Rádio Guajará FM tocava muito mais música que as FM's de hoje, eram três músicas e uma propaganda. Aqui entra um momento histórico. O Brasil atravessava o momento da ditadura militar, a Jovem Guarda tinha encerrado, praticamente, um ou outro como Carlos Gonzaga, Jerry Adriani, Roni Von, Roberto Carlos que se manteve mas mudou o estilo, as feras dos festivais, Caetano, Gil, Vandré, Juca Chaves, quando alguns se exilaram, enfim, eu entrei justamente nesse momento e a maior parte das músicas era estrangeira. O mercado teve que absorver esse tipo de música.
Também descobri em mim, o potencial social, ou seja, injustiça social, quando houve uma greve da categoria e me prontifiquei, além de reconhecer que tinha chegado a minha hora de ajudar quem me ajudou. Eles me chamavam de 'falador'. Eu não tinha nem nome de guerra, como se diz, o nome profissional. Eu ainda não era o Edson Matoso, mas o Antonio Edson, mesmo porque a Guajará não trabalhava o nome do profissional. Com a greve, sou demitido, faço gravações para a 'voz de poste', como chamavam, atualmente Rádio Comunitária, e tempos depois estou na Rádio Liberal e aí nasceu o Edson Matoso. Pra você ver, quem me levou foi um operador de áudio, o Marcos Vinícius, e caí no esporte.
Nesse tempo, o que tinha de gente boa na área não era brincadeira, como o Antunes de Carvalho, por exemplo. Hoje mudou. Os empresários de comunicação querem que o locutor compre o horário. Eles não querem locutor, querem vendedor, e a qualidade do Rádio decaiu. Ninguém é contratado pela qualidade, mas pelo que pode levar de comercial. Sobre os operadores, quem se adaptou, se aperfeiçoou, está aí. Se formos analisar essa figura profissional, praticamente a função está em extinção. Foi a Rádio Rauland que introduziu a figura do operador e fez a volta do comunicador tradicional quando acoplou à sua programação, a música regional, como o brega. Hoje conhecemos o 'DJ'.

E hoje você é o Diretor da Rádio Cultura...

Eu acredito em ideias. Acredito nas ideias do Jatene(governador). Na TV Liberal quebrei paradigmas sem saber, pelo meu jeito de me comunicar, tanto que fui convidado pela Rede Globo e por questões familiares fiquei impedido. Na TV RBA, apresentei esporte às 7 horas da manhã e que diziam ser inviável, foi bem recebido pelo público, sucesso. Sempre no esporte. Antes de ir para o SBT, onde estou até hoje, trabalhei no canal fechado. As mudanças se davam pela minha intransigência. Quando entro numa empresa, tenho que entender que existe uma ordem, uma norma, e o combate deve ser a partir do diálogo. E agora, totalmente diferente, como diretor. O meu vínculo com o PSDB vem desde 1990, quando fui o primeiro deputado estadual eleito pela legenda. Fui Constituinte, com nota 10, na apresentação de propostas e debates. A gestão pública é diferente e exerço um cargo de confiança, o que não quer dizer subserviência. O esporte não é bem vindo na Funtelpa. O meu amor pelo futebol já não é como antes, eu perdi, não aguento mais tanto destrato, desrespeito, com o dinheiro do torcedor. Meu comentário no SBT é um, o meu comentário na Cultura, é outro. Contraditório? Não. Represento meus superiores hierárquicos. Esporte pra mim é fraternidade, tanto que o meu sonho, numa emissora de televisão é fazer um programa pré, não depois. Eu tenho que entender a vocação da Cultura. O futebol, na minha opinião, está no entorno, no cara que vende o churrasquinho para as pessoas de todas as classes e profissões, por exemplo, o que chamo de comunicação humanizada. Uma cadeia produtiva.

Você está provocando a Academia Paraense de Rádio...

Não digo só a APR. É fundamental a participação da Academia do conhecimento como um todo, e ela é omissa na questão do Rádio. Olha de modo geral a TV e a escrita, a fala não, e esquece que tudo de acadêmico começou com a fala, com o achismo, com o empirismo. Então pergunto: Se Rádio não valesse nada, por que político, partido político e evangélicos adoram concessões de rádio? Por que? No mínimo é pra gente pensar.

Chegou no ponto máximo, profissional?

Não é o fim. Eu quero mais. Ser diretor é apenas um laboratório.

- entrevista concedida no gabinete da Rádio Cultura, em 02/06/2011.