As Fronteiras das Palavras



Em minha opinião, os Dicionários quebram as fronteiras de signos. Palavras diversas agrupadas, com o seu significado e significante. Gosto de Dicionários, principalmente os mais antigos, mais amplos, mais aglutinadores, mais democráticos com o conhecimento. Poucas são as pessoas que podem adquirir um bom Dicionário. Geralmente as escolas utilizam os mais simples. E com a internet, muito se perdeu na originalidade dos Dicionários.
Primeiro, que alguns não refletem as informações corretas e, segundo, você busca o que te interessa, não abrindo o leque para novos conhecimentos. O que dizer das Enciclopédias? Às vezes, penso que o Dicionário caminha nesse sentido, porque está cada vez mais especializado.

O escritor peruano Mário Vargas Llosa no seu Dicionário Amoroso da América Latina(Ediouro,2006), faz um passeio de A a W, com uma mistura de autobiografia, autores, política, economia, entre outros pontos sobre o nosso mundo, deslizando no passado e no presente, e destacando que as 'fronteiras nacionais não refletem as verdadeiras diferenças que existem na América Latina'.

A jornalista portuguesa Isabel Coutinho, em entrevista ao cantor e compositor Chico Buarque para a sua coluna no jornal português Público, inicia sua narrativa dizendo que em cima do piano, na sala do apartamento do artista, estava um Dicionário antigo, como relíquia.

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso(Francisco Alves,1991), ao recortar o sujeito apaixonado de inúmeras peças literárias, transforma a obra em um verdadeiro Dicionário. Diz ele, que 'diz-se que só as palavras têm emprego, não as frases; mas no fundo de cada figura jaz uma frase, quase sempre desconhecida'.

Afinal, o que são os Dicionários, se não fragmentos dos signos? Pergunto e, confesso que este é meu olhar. Edgar Morin(Meus Demônios,Bertrand Brasil,1997) para formar sua cultura, procurou o conhecimento 'enciclopedente', e não enciclopédico, para colocar em ciclos os conhecimentos dispersos.

Vários escritores já começaram suas obras pinçando palavras com significados, através dos Dicionários. Faço o mesmo, na série que abro sobre a 'História das Palavras' incentivada, também, por uma relíquia que possuo, o Dicionário da Língua Portuguesa(1988), elaborado pelo professor Antenor Nascentes, via Editora Bloch, já extinta. Um Dicionário que conta sua própria história de existência.

Esta série tem algo mais que a ousadia de apenas ser um relato.


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Obs. Confira este texto:
LINGUAGEM MÉDICA 
 
DICIONÁRIOS E TERMOS MÉDICOS
        Conta-se  a anedota de um homem simples do povo, que após ouvir falar a Rui Barbosa, disse-lhe todo orgulhoso: "Eu tenho um livro lá em casa que tem tudo que o Sr. falou", ao que Rui teria indagado, surpreso: - "E que livro é esse?" - "Chama-se DICIONÁRIO", replicou o feliz possuidor de tamanho tesouro. 

        Este conceito de onisciência e polivalência do dicionário está de tal modo arraigado entre nós que, mesmo entre as pessoas de instrução superior, é freqüente ouvirem-se frases como estas: "Está no dicionário", "eu vi no dicionário", como se o conteúdo de um dicionário fosse o próprio texto de um livro sagrado, infalível, definitivo. 

        Infelizmente a verdade é bem outra. Os dicionários, por melhores que sejam, contêm falhas, omissões, erros e opiniões divergentes entre si. Todo trabalho humano é necessariamente imperfeito e os dicionários com maior razão ainda, em virtude de sua natureza e complexidade. 

        As dificuldades na organização de um dicionário são inúmeras: de ordem ortográfica, prosódica, etimológica, semântica, sem falar nos percalços da editoração. 

        Vamos considerar apenas dois aspectos: a semântica e o corpus lexical, ou seja, o número de palavras averbadas. 

        A língua não é estática, "move-se ao longo do tempo numa corrente que ela própria constrói" (Sapir). O dicionário nada mais representa que o registro das palavras de uma língua em um dado momento da sua história. Muitas palavras nascem, envelhecem e morrem como células integrantes de um organismo vivo. Outras sobrevivem, porém sofrem mudanças de significado ou adquirem com o tempo novas acepções.

        Tais mudanças são lentas, mas podem ser facilmente percebidas ao folhearmos um dicionário de um ou dois séculos passados, quando deparamos com quantas palavras que já não se usam e que lá estão, mumificadas, ao lado de outras que ganharam significados novos. 

        Os lexicógrafos nada mais fazem do que registrar os vocábulos em uso, que eles procuram captar em suas várias acepções nas fontes disponíveis ao seu alcance. Alguns conseguem uma coleta mais ampla e enriquecem o seu trabalho com citações de textos e autores por eles consultados. A par disso, registram a categoria gramatical da palavra, a sua pronúncia e a sua etimologia. Os dicionários mais bem elaborados assinalam ainda a data em que a palavra foi introduzida na linguagem escrita. 

        A dificuldade maior na organização de um dicionário, entretanto, reside no que Houaiss chamou de "explosão vocabular", que fez com que o corpus lexical da língua portuguesa passasse de cerca de 20.000 a 30.000 palavras no início do século XIX para aproximadamente 350.000 a 400.000 palavras atuais. 

        Essa explosão vocabular se deve, sobretudo, ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Os novos termos criados são de uso internacional, sofrendo adaptações morfológicas em cada idioma em particular.[1] 

        Os melhores dicionários existentes em língua portuguesa resultaram do esforço de alguns abnegados lexicógrafos, que dedicaram parte de sua existência a um trabalho árduo e penoso, nem sempre compensador, para nos legarem o que de melhor existe em matéria de lexicografia. 

        No século XVIII o Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau, publicado em Lisboa entre 1712 e 1728, representou um marco na história da língua portuguesa. 

        No início do século XIX veio a lume o dicionário de Antônio de Moraes Silva, cuja segunda edição, de 1813, é considerada obra clássica de lexicografia portuguesa. Seguiram-se, entre outros, os dicionários de Francisco Solano Constâncio (1836), Eduardo de Faria (1849), Frei Domingos Vieira (1871), Correa de Lacerda (1874), Caldas Aulete-Santos Valente (1881), Cândido de Figueiredo (1899), cada qual apregoando sua superioridade sobre os seus antecessores, todos com falhas, omissões e incorreções. À exceção do dicionário de Constâncio, publicado em Paris, os demais foram impressos em Lisboa. 

        O primeiro dicionário da língua portuguesa, escrito e publicado no Brasil, data de 1832, e se deve ao goiano Luiz Maria da Silva Pinto, que o compôs e imprimiu na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. Intitula-se Dicionário - Língua brasileira.[2] Trata-se de obra rara e de valor histórico, infelizmente pouco conhecida. 

        Os dicionários de Moraes Silva e Caldas Aulete tiveram edições posteriores ampliadas, enriquecidas, atualizadas. 

        No século XX surgiram no Brasil obras notáveis no campo da lexicografia, como as de Laudelino Freire-J. L. de Campos, Antenor Nascentes, Silva Bastos, Silveira Bueno, Prado e Silva, Aurélio Ferreira, Antônio Houaiss. Todas, entretanto, deficientes no tocante à terminologia cientifica. 

        Essa deficiência é muitas vezes agravada pelo propósito do autor de não sobrecarregar o léxico "com uma verdadeira praga de coleópteros e animais daninhos", para usar as palavras do grande filólogo Pe. Augusto Magne, cujo malogrado Dicionário da Língua Portuguesa interrompeu-se, infelizmente, na letra "A ", por morte do autor. 

        O Dicionário da Língua Nacional, previsto pela Lei n° 93, de 21/12/1937, cuja publicação ficara a cargo do Instituto Nacional do Livro, jamais passou de um ambicioso projeto. 

        Academia Brasileira de Letras, em 1940, designou o Prof. Antenor Nascentes para elaborar o que se propôs chamar de projeto de um Dicionário da Língua Portuguesa. O Prof. Nascentes concluiu o seu trabalho em 1943, porém o mesmo só foi publicado de 1961 a 1967, em 4 volumes. Trata-se de obra valiosa, porém pouco difundida. 

        Em cumprimento à Lei 5.765, de 18/12/1971, a Academia Brasileira de Letras publicou, em 1981, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, organizado por uma Comissão de Acadêmicos, sob a coordenação do eminente lingüista Prof. Antônio Houaiss. A 3a. edição, atualizada, do referido Vocabulário,foi publicada em 1999. 

        Contamos atualmente com três modernos dicionários à nossa disposição: o Michaelis, editado pela Companhia Melhoramentos (1998), a 3a. edição do dicionário de Aurélio Ferreira, que se autodenominou Aurélio Século XXI (1999) e o Dicionário Houaiss (2001), sem dúvida o mais completo dos três, sob todos os aspectos, especialmente quanto à etimologia e à datação histórica das palavras. 

        Em Portugal, também em 2001, foi lançado o dicionário oficial da Academia das Ciências de Lisboa, em dois volumes, intitulado Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. 

        Cada área do conhecimento humano desenvolveu sua própria linguagem, com terminologia pouco acessível aos não iniciados. Este fato fez com que surgissem os dicionários especializados, inteiramente dedicados a áreas específicas do saber. Contam-se às centenas tais dicionários. 

        No particular da medicina, desde cedo tornou-se evidente a sua necessidade. 

        O mais antigo dicionário impresso de termos médicos de que se tem noticia é de autoria de Simone Cordo, que viveu de 1270 a 1303. Foi editado pela primeira vez em Ferrara, em 1471.[3] 

        Em 1564 foi publicado em Genebra o Diccionarium Medicum, de autoria de Henrique Estiennes. Trata-se de uma coletânea de termos médicos greco-latinos extraídos de autores clássicos, que muito influenciou na fixação da terminologia anatômica.[4] 

        Em 1598 foi publicado em Veneza o Lexicum medicum graeco-latinum, de autoria de Bartolomeu Castelli, obra que se tornou clássica pelo acervo lexical que contém.[4]] 

        Em 1679 surgiu a primeira edição do Lexicum Medicum Graeco-latinum Germanicum, de Stephen Blancard, médico e farmacêutico holandês. Trata-se de um pequeno dicionário que teve boa aceitação, alcançando a quinta edição em 1718. 

        No século XVIII foi publicado na Inglaterra o New Medical Dictionary, de John Quincy e, na Alemanha, o Medizinisch-chirurgisch-terminologisches Wörterbuch, de Knackstedt. 

        A partir do século XIX foram editados em alemão, francês e inglês importantes léxicos especializados em terminologia médica. Na Alemanha destacaram-se o dicionário de Ludwig Kraus, intitulado Kritisch Etymologisches Medicinisches Lexikon, e o de Walter Guttman, Medizinische Terminologie, cuja primeira edição data de 1902. 

        Na França a iniciativa de maior repercussão data de 1806 e se deve a Brosson, médico e livreiro que editou um pequeno dicionário de medicina e ciências afins, o qual foi ampliado por Nysten. Este dicionário foi posteriormente refundido e muito aumentado em 1873 por Littré e Robin, passando a chamar-se Dictionnaire de Médecine, de Chirurgie, de Pharmacie, de l’Art Vétérinaire et des Sciences qui s'y Rapportent, o mesmo título de outro dicionário semelhante, assinado unicamente por Littré, cuja 18. edição póstuma foi publicada em 1898. 

        O dicionário de Littré e Robin teve sucessivas edições, sendo que a 21. edição data de 1908 e traz a assinatura de Littré e Gilbert. 

        Também na França foi publicado, em 1899, o Dictionnaire des Termes Techniques de Médecine, de Garnier e Delamare, obra premiada pela Academia Francesa e que alcançou a vigésima edição em 1978. Desta última edição existe tradução para a língua portuguesa. 

        Finalmente a França ofereceu à comunidade científica em 1970 o monumental Dictionnaire Français de Médecine et Biologie, de Manuila e colaboradores, obra com mais de 150.000 entradas e da qual participaram 350 especialistas. 

        Na Inglaterra foram editados dois importantes léxicos: o Dictionary of Terms Used in Medicine, de Hoblyn (1830) e o dicionário de Mayne, intitulado An Expository Lexicon of the Terms Ancient and Moderns in Medical and General Science (1860). Este último, grandemente ampliado e atualizado, foi reeditado em anos posteriores (1881-1899) sob o nome de The New Sydenham Society's Lexicon of Medicine and Allied Sciences.[5] 

        Nos Estados Unidos da América do Norte vieram a lume no século XIX o Dictionary of Medical Sciences, de Robley Duglison, que alcançou a 21. edição em 1893, e o Illustrated Dictionary of Medicine, Biology and Sciences, de George Gould, cuja 3a edição data de 1896. 

        Dois outros dicionários médicos norte-americanos que tiveram grande sucesso e sobreviveram até os dias atuais, foram o Dorland's Illustrated Medical Dictionary e o Stedman's Medical Dictionary. O primeiro deles data de 1900 e chegou à 28ª edição em 1994, tendo sido traduzido para o espanhol, japonês e para o alfabeto Braille. O Stedman's Medical Dictionary teve sua 1ª edição em 1911 e a 23ª em 1976. Há dele uma tradução para o português. 

        Um dos mais modernos dicionários médicos em língua inglesa é o Churchill's Medical Dictionary, editado em 1989. Com mais de 2.000 páginas e cerca de 100.000 entradas, nele colaboraram 90 professores e especialistas de várias Universidades dos Estados Unidos e da Inglaterra. 

        Em língua espanhola devem ser mencionados o Dicionário Terminológico de Ciências Médicas, de Cardenal, que teve seis edições entre 1918 e 1958, e o Dicionário Enciclopédico de Medicina, de Léon Braier, cujo êxito pode ser avaliado pelo fato de ter tido quatro edições em 25 anos (1955-1980). 

        No Brasil, os primeiros dicionários de medicina editados são, na verdade, tratados de medicina popular, nos quais os tópicos se dispõem em ordem alfabética. São eles o Dicionário de Medicina Popular e das Sciencias Acessórias, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, e o Diccionario de Medicina Domestica e Popular, de Theodoro Langaard. 

        Chernoviz era polonês de nascimento, tendo-se educado em Paris. Seu verdadeiro nome de família era Czerniewicz, mudado depois para Chernoviz. Viveu no Brasil de 1840 a 1855, tendo publicado várias obras, das quais as mais importantes foram o Formulário ou Guia Medica, que chegou a alcançar dezenove edições, sendo três póstumas, e o dicionário já referido, que desfrutou de grande prestígio e cuja 6ª edição data de 1890. 

        Theodoro Langaard era médico dinamarquês, radicado no Brasil, tendo publicado a 1ª edição de seu dicionário em 1865 e a 2ª em 1873. Sua obra mereceu comentários elogiosos de Von Martius, conforme consta do prefácio da segunda edição. 

        Em 1905, o eminente médico e filólogo Ramiz Galvão publicou o Vocabulario Etymologico, Orthographico e Prosodico das Palavras Portuguesas Derivadas do Grego, no qual se encontram arrolados os principais termos médicos em uso na época. 

        Em 1917, Plácido Barbosa publicou o seu Dicionário de Terminologia Médica Portugueza, cuja finalidade principal, conforme consta na Introdução do mesmo, era a de corrigir "os erros, os barbarismos, os vícios, as deficiências, as impropriedades e os desacertos de que anda inçado o vocabulário médico portuguez hoje em uso". Conforme o próprio autor reconhece trata-se apenas de uma contribuição a um futuro dicionário médico completo. 

        A primeira tentativa, infelizmente malograda, de se editar no Brasil um dicionário médico de maior amplitude data de 1923 e se deve a Serafim Vieira de Carvalho e Paulino B. Vieira.[6] 

        Em 1926 foi publicado o Dicionário Enciclopédico de Medicina, de Ricardo d'Elia, obra pouco difundida. 

        O dicionário médico que teve maior aceitação entre nós e alcançou sucessivas edições foi o de autoria de Pedro A. Pinto, professor de farmacologia da antiga Faculdade Nacional de Medicina (hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de janeiro). A 1ª edição data de 1926 e a 8ª de 1962. Seu autor, que dizia não ser filólogo, era profundo conhecedor da língua e da literatura clássica portuguesas, tendo publicado inúmeros trabalhos e livros sobre questões de linguagem. Na maioria dos verbetes de seu dicionário encontram-se ensinamentos, conceitos e opiniões do próprio autor, o que muito valoriza esta obra. 

        Outras contribuições lexicográficas no campo da medicina surgiram no Brasil em anos posteriores, tais como o Dicionário Médico, de Mário Rangel (1951), o Dicionário Médico, de Hugo Fortes e Genésio Pacheco (1968) e o Dicionário Médico, de Rodolpho Paciornik (1969). 

        Algumas editoras, em diversos países, têm publicado traduções de dicionários médicos. De modo geral, as traduções de dicionários médicos não são recomendáveis. Os textos explicativos dos verbetes são, em geral, mal traduzidos, e neles se percebe a língua de origem, descaracterizando o segundo idioma. Além disso, não atentam para as peculiaridades da terminologia que o uso consagrou em cada país. 

        O mais moderno dicionário de termos médicos em língua portuguesa, editado em 1999, é de autoria de Luis Rey e intitula-se Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. 

        O dicionário em epígrafe veio preencher uma lacuna no meio médico brasileiro e atender a uma necessidade não somente do meio médico, como de outros profissionais da área de saúde. O que põe em relevo e valoriza sobremodo esta obra é o lastro científico na conceituação dos termos averbados e sua feição enciclopédica e didática. Nela, os verbetes têm um tratamento diferenciado, abrangente, com definição precisa do seu significado, em sua única ou várias acepções, dentro da especialização semântica dos diferentes ramos das ciências biomédicas. Nela, o leitor se instrui e se atualiza, qualquer que seja o termo consultado. 

        Para alcançar esta alta qualidade, o autor contou com a colaboração de nada menos de 98 especialistas, os quais, segundo suas próprias palavras "contribuíram com seus conhecimentos científicos e com sua experiência" e "pacientemente reviram cada item das respectivas disciplinas". 

        Outra característica deste dicionário é a ênfase dada aos termos relativos às doenças infecciosas e parasitárias, com ampla cobertura da patologia tropical, o que atende à realidade nosológica do nosso País. O autor seguiu a Nomenclatura Internacional das Doenças do CIOMS/OMS, embora registre os sinônimos mais usados, com remissão para o termo que deve prevalecer. 

        Ao final de cada verbete encontra-se o termo equivalente em inglês, o que é muito importante na época atual de hegemonia da língua inglesa nas comunicações científicas e contribui para evitar os falsos cognatos que infestam as traduções de livros técnicos no Brasil. 

        O dicionário do Prof. Rey prima ainda pela clareza e correção da linguagem, perfeito domínio do idioma pátrio e cuidadosa revisão tipográfica. As questões lingüísticas mais polêmicas foram tratadas com sabedoria e bom senso, sem as amarras do puritanismo vernáculo e atentando para a tradição da linguagem técnica usada em biologia e medicina. Citamos como exemplos as opções adotadas para as palavras, acalásia, amilase, anquilose, autópsia, catéter, colecistocinina, crossa, dengue (s.m.), diabetes (s.m.), dissecção, espinhal, estádio, hemácia, lipídio, má-absorção, óptico, parasito, peritônio, retardo, entre outras. 

        Discordamos do Prof. Rey somente em duas de suas opções. A primeira delas se refere às palavras formadas com o determinado grego -soma, tais como cromossoma, desmossoma, ribossoma, etc, em que este radical foi modificado para -somo: cromossomo, desmossomo, ribossomo, etc.. A segunda diz respeito à tireóidee seus cognatos, em que foi adotada a raiz -tireo, em lugar de tiro, em desacordo com aNomina Anatomica. 

    Retiraríamos também o termo enfarte como sinônimo de infarto e consideraríamos cólera, doença, somente do gênero masculino. 

        Com estas poucas ressalvas, o dicionário do Prof. Rey nos libera da tutela dos dicionários gerais, cujos autores, embora profundos conhecedores da língua portuguesa, ignoram as peculiaridades e a tradição da terminologia científica. 

        Conforme ressalta o Prof. Idel Becker em seu livro Nomenclatura Biomédica no Idioma Português do Brasil, este assunto é da competência exclusiva dos profissionais da área biomédica. São as sociedades científicas que devem procurar definir o significado de cada termo técnico da área biomédica e decidir com conhecimento de causa quanto à sua grafia e pronúncia. 

        O importante, quando consultamos um dicionário, seja técnico ou geral, é que estejamos conscientes de que nem sempre vamos encontrar tudo que desejamos; de que o registro que buscamos pode revelar apenas um ponto de vista sobre uma questão que comporta duas ou mais interpretações. Devemos estar convictos de que os dicionários não são infalíveis e que os seus ensinamentos podem ser questionados. 

        É importante que façamos o cotejo entre um e outro léxico, que consultemos mais de um autor, comparando o que escreveram sobre a mesma palavra. Por vezes os textos são idênticos; por vezes há divergências quanto à grafia, quanto à prosódia, quanto ao gênero da palavra, quanto à etimologia, quanto à semântica. Uns são mais completos que outros, ao assinalarem as diversas acepções de um mesmo vocábulo, e mais ricos no exemplário das fontes consultadas. Há dicionários de todo jaez, de épocas diferentes, edições mais bem cuidadas que outras, com muitos ou poucos erros tipográficos. 

        Assim, ao nos referirmos a um dicionário, é necessário mencionar sempre o autor, a edição, o editor e o ano da publicação. 

     No tocante à terminologia médica, nós médicos devemos manter certa independência e espírito crítico em relação aos dicionários gerais que fazem incursões pela terminologia científica. De modo geral, tais dicionários definem de maneira incompleta, ou mesmo incorreta, o significado de termos médicos, além de impor normas de como escrever ou pronunciar tal ou qual palavra, ao arrepio do uso e da tradição da linguagem médica. 

Referências bibliográficas
(restritas às consideradas essenciais)
HOUAISS, A. - Estudos vários sobre palavras, livros, autores. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, p. 104. 

  1. 2. MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO - História da tipografia no Brasil. São Paulo, Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia, 1979, p. 178. 

    3. MORTON, Leslie T.: A medical bibliography (Garrison and Morton), 4.ed.
    London, Gower, 1983, p. 902. 

    4. MANGABEIRA-ALBERNAZ, P. - Questões de linguagem médica. Rio de Janeiro, Liv. Atheneu, 1944, p. 171. 

    5. SKINNER, H.A. - The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 435-437. 

    6. ALMEIDA, S., VIEIRA, P.B. - Dicionário de termos médicos. Rev. de Língua Portuguesa, ns. 21 a 39, 1923-1925.
Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..
Joffre M de Rezende 

Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás 
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina